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terça-feira, 16 de abril de 2013

Zizinho foi um poeta. E viveu poeticamente.

Texto de Joaquim Maria Botelho 

Casou-se, em 1949, com a prima Ruth, sua melhor e mais querida amiga. E passou a vida pedindo a Deus que lhe permitisse morrer antes dela, porque não suportaria perdê-la. Foi atendido no dia 9 de outubro de 2001, abatido pelo mal de Alzheimer.
 
O casal viveu em São Paulo os primeiros anos do casamento. Zizinho trabalhava na Estrada de Ferro Central do Brasil e Ruth no Laboratório Torres e em algumas editoras. Mas, sempre que podiam, ficavam períodos em Cachoeira Paulista, na chacrinha herdada do avô, o guarda-chaves Juca Botelho. 

No começo de 1955, decidiram mudar-se para cá. Tinham três filhos pequenos – e eu na barriga – e queriam a tranquilidade de vê-los brincando e crescendo em lugar saudável, em contato com a terra e com animais. Ruth pediu remoção e assumiu cadeira no Colégio Valparaíba. Para ela não foi difícil. Graduada em Letras, num tempo em que o grau universitário era raro entre as professoras, e já autora de dois livros festejados pela crítica, tinha numerosos pontos de vantagem sobre os competidores e podia escolher qualquer escola que lhe aprouvesse. Para completar o plano, Zizinho, aventureiro e sonhador, abandonou o emprego promissor na estrada de ferro e resolveu que conseguiria trabalhar em Cachoeira Paulista ou em qualquer cidade próxima. Não perdia, nada, em sua opinião. Seu pai, Antonio Botelho, era o agente da estação Roosevelt da Estrada de Ferro Central do Brasil, seu chefe e por isso mesmo motivo de inveja entre os colegas. Chamavam-no de Botelhinho, em mal disfarçada censura por uma suposta preferência do agente pelo filho, em detrimento dos profissionais da área. Correto, dono de um código rígido de ética pessoal, Zizinho mortificava-se com a situação. Por isso, a mudança de cidade e de emprego não o incomodou. Muito depressa, conseguiu ocupação como laboratorista em uma firma de fotografia, na cidade de Lorena. Trabalhava à noite, quando Ruth já havia chegado a casa, das aulas do colégio. Trabalho exaustivo e inexpressivo, pelo menos serviu-lhe de escola para transformá-lo no excelente fotógrafo que foi. Aprendeu a composição química dos reveladores, fixadores e banhos de parada. Lia avidamente sobre história da arte, composição, estética. 

Já atuando como fotógrafo, ele próprio construiu o ampliador, ele próprio comprava os químicos e misturava as soluções de nome difícil, como hidroquinona e hipossulfito. Todos nós o ajudávamos a estender, secar e cortar retratos. Menino, muitas vezes eu fazia as entregas das encomendas. Mais tarde, Marcos e Júnia também desempenharam a função. Papai tentou me entusiasmar pela técnica, mas confesso que não consegui me interessar pela fotografia. Marcos, por esse tempo, era quem começava a se animar pela carreira do pai e era quem mais aproveitava os momentos com ele, no laboratório. 

Zizinho foi homem extraordinariamente devotado à mulher e aos filhos. Alegre e carinhoso. Em casa, à noite, tocava violão e cantava, com todos os filhos em volta. Apreciava música clássica e nos incentivava a ouvir. Ensinou-nos a dançar. Ele e Ruth escreviam e montavam peças de teatro, das quais participavam amigos, alunos, e nós também. Foram, sempre, verdadeiros agitadores culturais na cidade. 

Para dar ideia da força desse casal: Zizinho teve tuberculose em 1961 e por decisão de Ruth combinaram que fariam o tratamento em casa. Foi cercado de todos os cuidados, remédios, esterilização de roupas e utensílios e acompanhamento médico do velho amigo da família e primo torto dos dois, Dr. Darwin Aymoré do Prado. 

Em 1964, um problema de saúde de Marta, a filha mais velha, levou a família de volta para São Paulo. Zizinho, que podia trabalhar em casa, e, portanto, com horários flexíveis, assumiu alegremente o papel de cuidar dos filhos, enquanto Ruth escrevia e lecionava. Era um zero à esquerda, na cozinha, porém. Era capaz de, fervendo água, deixar queimar. Por isso, eu fui destacado para juntar-me à comitiva e administrar a casa, em Cachoeira, seis anos depois, em 1970, quando a nefrite do nosso irmão Antonio José exigiu tratamento em clima quente. Por dois anos, a família viveu repartida. Metade em Cachoeira, metade em São Paulo, onde Ruth ficara para não perder o emprego na editora Cultrix. 

Zizinho foi fazer faculdade já aos 53 anos. Os filhos estavam crescidos. Ruth era efetiva na cadeira de Português. Ademais, ainda que amasse a fotografia, com a abertura de modernos laboratórios, revelações no mesmo dia (ainda não havia a tecnologia para revelação em uma hora), agências que ofereciam o pacote completo para casamentos, por exemplo, o mercado ia ficando restrito para “retratistas” como ele. Pois Zizinho enfrentou o vestibular, passou com honras, sofreu o trote como qualquer calouro – divertiu-se ao chegar a casa com a cara pintada e a cabeça raspada – e foi cursar Letras, na Faculdade Teresa D’Ávila, em Lorena. 

Em 1975, penúltimo ano da faculdade, participou do Projeto Rondon, na cidadezinha de Uruçuí Preto, no interior do Piauí. 

Tornou-se professor, depois, da mesma faculdade, onde formou centenas de alunos que devem a ele o gosto pela arte.
 
Achei, há algum tempo, um papel dobrado com uma experiência literária de meu pai. Trata-se de um trabalho solicitado por um de seus professores da faculdade e devia responder a seguinte pergunta: “O que estou fazendo aqui?”. O texto mostra quem ele era. Para mim não seria preciso esse testemunho para que eu soubesse quem era meu pai. Foi o melhor amigo de minha mãe – e só isso já teria bastado para que eu o admirasse. Mas era mais do que isso. Um homem especialmente ético e especialmente amoroso. Foi meu herói e foi meu amigo.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Um tal de Zé


Por Júnia Botelho
(texto editado. Versão original vencedora do Prêmio Talentos da Maturidade, do Banco Real, hoje Santander, em 1997)

(...)
José.
Ficou velho. Odiou tanto essa condição, se “arrependeu” de ficar velho, dizia, que preferiu morrer. Abandonou os compromissos sociais “agora que sou velho não tenho obrigação de nada, posso tudo, eu faço o que eu quero”; despiu máscaras, despiu terno, despiu casca.
A velhice desnudou dignidade, desnudou condição humana. Só não conseguiu tirar-lhe essência: a vida que teve, reproduzida nas vidas que fez, biogenéticas ou não.

Esse é o tal de Zé
(...)
José ele se chamava. Fotógrafo. Sua máquina era seu terceiro olho, aquele que nos desvenda o mundo. Apreciava tudo com muito cuidado, meticulosamente. Esperava a luz apropriada, preocupava-se até mesmo com a direção do vento. Outro Zé, desta vez o “seu” Zé Barbeiro, homem simples, que entendia muito bem do seu métier de fazer barbas e cabelos, e só, estranhava o procedimento de procura de perfeição de seu homônimo:

dona Ruth, acho que o ‘seu’ Zizinho ‘tá ficando maluco. Ele ‘tá ali agachado no meio do mato, tirando retrato de pito-de-saci!”.

Sempre querida FATEA
(...) O instrumento de trabalho de José era o olhar, a máquina extensão. Ele piscava – a máquina piscava também, e produzia uma obra de arte. Que diafragma, que foco, que nada! eram retina e pupila, isso sim! Enquadrou a luz, enquadrou a sombra.

A tecnologia calçou as botas de 7 léguas e passou por cima de nossas cabeças, pensava José. O mundo da produção captação transmissão processamento armazenagem das imagens aperfeiçoa-se, permite uma construção tão perfeita que é difícil dizer se o que vemos é real ou uma reconstrução. Máquinas diferentes... “que história é essa de só apertar um botãozinho?” espantava-se José. Ele não admitia as simplificações, porém sua escolha não impedia os passos da tecnologia. Aos poucos foi sendo dispensado de suas funções, já não mais ensinava a ver. E cegou.

Rio Paraíba do Sul
1921 foi quando nasceu meu pai. No Vale das Cidades Mortas de Monteiro Lobato. No vale do rio que se chama Paraíba, rio que sai do Estado de São Paulo e chega ao Rio de Janeiro, acompanhando o viajante, volteando, ondeando, ilhando, cantando. Encantando o sol. Mas gritando de dor, pois está doente.
Meu pai e o rio. Entre rio e homem justapostos se estabeleceram afinidades, intimidades e conflitos que se efetivaram numa interação de profundos efeitos.

(...) Antes de cegar, meu pai enxergava as feridas do rio, fotografava homens que o sangraram.
Como não podia lutar contra Deus e Seus mandamentos, contra o câncer que lhe comia a carne, contra o Alzheimer que lhe carcomia o cérebro e também a alma, então dedicava-se a fotografar a miséria exposta do seu amigo rio. Viu o que matava o seu companheiro de desventuras no entanto esse homem não tinha mais tempo. O rio claro de sua infância sofria tanto quanto ele, chorava tanto quanto ele.

(...) Ah! Mas José estava morrendo... estava tão exangue, sentia-se tão inútil, não podia fazer mais nada.
Oras, mas o rio também tinha que tomar uma atitude! Tinha que ser fiel àquele que já não podia estar ao seu lado. Mas esse rio também envelhecia. E os finais de tarde eram cada vez mais purpúreos, manchando os olhos. Estavam os dois agonizando.

(...) O olhar que José tinha para seu rio era muito afetuoso.

 (...)
Mesmo se formos bons para o rio, às vezes ele pode ficar colérico. Ele enche, incha, transborda, atravessa seus limites e invade. Depois se arrepende, se acalma, volta, esvazia. Como se nada tivesse acontecido. Nem vê o que deixou para trás. Destroços não lhe dizem nada, somente coisas no caminho.

(...)
José era professor. Educador. Falava alto, dogmático, dono da verdade. E brigava por isso.
Ai! daquele que jogasse lixo no seu amigo rio! Não usava a palavra preservação porque rótulos não combinavam com ele; não queria saber de ecologismos, meioambientalismos.
Muito falatório e pouca mão na massa não adiantam nada. A casa está ruindo, todos estão vendo e quem é que pode fazer alguma coisa?
Os predadores estão no seu cérebro e no do rio, é preciso agir. “Eu não mudo nada no mundo, que minha presença ou ausência não faz diferença” diria José, “saio eu, daqui a pouco tem outro no meu lugar. Mas o rio morre e morre tudo em volta. Seca, esturrica, apodrece, cheira mal, faz adoecer e o círculo se fecha e então fica mais difícil de resolver. Quem é que pode ouvir este meu grito?”

(...)
É. Acredito que ele teria gostado de falar disso. E para finalizar tocaria uma modinha no seu violão, naquele jeito seresteiro e boêmio.
Foto de Sebastião Albano


Envelhecer tem certas vantagens, as pessoas mudam de opinião sobre o que é certo e o que é errado. Já não tem mais importância alguma ser seresteiro. Melhor dizendo: é até mesmo valorizado.




(...)
José não desistiu, não. Ele agora está morando na história de Guimarães Rosa, à terceira margem do rio. E só sai de lá depois que seu amigo rio parar de sangrar. Ele também sangrou. E sabe o quanto doeu. Então ele não pode se calar. Nós, os filhos todos do tal de Zé, aqueles que ele gerou, aqueles que ele criou, aqueles que ele educou, aqueles que ele ensinou a ver e a enxergar, pedimos: por favor, tirem nosso pai da terceira margem.

Falar com meu Pai

Parler À Mon Père - Céline Dion 
Tradução de Júnia Botelho

Eu gostaria de esquecer o tempo 
Por um suspiro, por um instante 

Um parêntese após a corrida 
E partir para onde meu coração me empurra. 
Eu gostaria de encontrar minhas pegadas 
Onde está minha vida, onde é meu lugar 
E guardar o ouro do meu passado 
No calor do meu jardim secreto. 

Gostaria de cruzar o oceano 
Cruzar o voo de uma gaivota 
Pensar em tudo o que vi 
Ou até mesmo ir em direção ao desconhecido. 
Eu gostaria de roubar a lua 
Gostaria até de salvar a terra 

Mas, antes de qualquer coisa, eu queria falar com o meu pai. 

Falar com o meu pai 

Eu gostaria de escolher um barco 
Não o maior nem o mais bonito 
Eu o abarrotaria com as imagens 

E com os perfumes de minhas viagens. 
Gostaria de parar para me sentar 
E encontrar no poço de minha memória 
As vozes dos que me ensinaram 

Que não há sonho proibido. 

Gostaria de encontrar as cores 
Do quadro que tenho no coração 
Desse cenário de linhas puras 
Onde eu o vejo, o que me tranquiliza. 
Eu gostaria de roubar a lua 

Gostaria até de salvar a terra 

Mas, antes de qualquer coisa, eu queria falar com o meu pai. 
Falar com o meu pai 
Eu gostaria de esquecer o tempo 
Por um suspiro, por um instante 
Um parêntese após a corrida 
E partir para onde meu coração me empurra. 
Eu gostaria de encontrar minhas pegadas 
Onde está minha vida, onde é meu lugar 
E guardar o ouro do meu passado 
No calor do meu jardim secreto. 

Eu gostaria de partir com você 
Eu gostaria de sonhar junto com você 
Sempre procurar o inacessível 
Sempre ter esperança no impossível. 

Eu gostaria de roubar a lua 
E por que não ? salvar a terra 
Mas antes de qualquer coisa, acima de tudo, eu gostaria de falar com meu pai 

Falar com meu pai.

quarta-feira, 20 de março de 2013

José Botelho Netto - biografia



"Através da beleza do preto e branco, o fotojornalista Botelho Netto, também professor, também pai, também marido e também amigo, discutia em seus projetos fotográficos a linguagem da imagem captada".



Botelho Netto é paulista da cidade de Cachoeira Paulista, nascido no dia quinze de janeiro de 1921. Nasceu na Rua Silva Caldas, s/n e morreu na Rua Carlos Pinto, 130, curiosamente na mesma casa, na cidade de Cachoeira Paulista, dia 09 de outubro de 2001. Era o mais velho de quatro irmãos. Ia se chamar Cirilo, mas o seu tio, pai de sua esposa, esqueceu o nome quando estava no cartório e tascou-lhe um José. Seu pai, Antonio Botelho, era chefe de estação e ficava entre Rio e São Paulo e foi em Suzano que fixaram residência. Morava no Torreão do meio.

Zizinho para os amigos, para a esposa, para a turma do ginásio cachoeirense onde ele entrou aos trinta anos para não ser o “marido da professora” e ter sua própria personalidade. Botelho para os colegas de trabalho, para os amigos da faculdade onde aprendeu a amar a linguística, a semiótica, a história da arte. 

Com a esposa, Ruth Guimarães, teve 9 filhos. Uma tal de síndrome de Alport atacou a família mas nem todos manifestaram a doença. Esse casal foi companheiro na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Enquanto moraram em Cachoeira ele era o fotógrafo dos casamentos, dos batizados, dos noivados, dos “anjinhos”. Na praça tinha um alto-falante com sua propaganda: “Você é feio? Isso não é problema para o Zizinho do foto Marta.”

Vieram para São Paulo com os 4 filhos mais novos crescidos, dos nove que tiveram, para dar a estes chances que a cidade pequena não oferecia. Prestou concurso, foi ser professor no Campo Belo, longe léguas da Adma Jafet, travessinha da 9 de julho, em frente ao hospital Sírio Libanês, onde morava. Por quê? Porque se apaixonou pelo nome da rua: “Feitiço da Vila”.

Era apaixonado pelo que fazia. Era professor. Educador. Ensinava a ver. Ensinava fotografia com a técnica da latinha e o furo da agulha. Levava seus alunos para o alto das montanhas, para as trilhas, mandava tirar os sapatos, sentir a grama e a terra. Ensinava os meninos do ginásio fazendo coral de poesias, contando histórias, jogando truco. Ensinava os filhos no cinema falando de composição, triângulo de ouro, foco, luz, cor, saturação. Ensinou a faculdade onde estudou, a Fatea, a montar seu próprio laboratório. E quase passou cimento nos tijolos junto, para mostrar como deveria ser o melhor laboratório do mundo. Era engajado, consciente, e todos eram seus alunos em qualquer conversa que houvesse. Porque sua missão era ensinar. Fazia saraus em sua casa para juntar os amigos linguistas, filósofos, comunistas, poetas, jornalistas, folcloristas, cantadores. O violão levava às discussões e as discussões viravam cantoria. 

Tinha tanta cantoria que animou um grupo de violão e cavaquinho e flauta, com o Bolacha, o Nilton Roseira, e outros, que se chamou “Os Velhinhos Transviados”. E fizeram sucesso até na capital!

Esse homem foi boêmio, fotógrafo, professor, educador, ambientalista. Mas principalmente fotógrafo, e fotógrafo-poeta. Um artista.


Texto de Júnia (carinhosamente chamada de Juninha, Junica), a caçula dos 9.