domingo, 21 de outubro de 2012

Resenha de A Corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo.

Luiz Paulo Jesus de Oliveira

O livro A CORROSÃO DO CARÁTER – conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo de autoria do Richard Sennett foi publicado pela Editora Record, no ano de 1999. Sennett é professor de sociologia da Universidade de Nova Iork e da London School of Economics e autor também do ensaio Carne e Pedra, O Declínio do Homem Público e The Hidden Injuries of Class (com Jonathan Coob).

O livro está organizado em 8 capítulos e um apêndice, escritos numa linguagem simples e com uma profunda análise sociológica das transformações do mundo do trabalho.
Na primeira parte do livro o autor argumenta que o capitalismo vive um novo momento caracterizado por uma natureza flexível, que ataca as formas rígidas da burocracia, as conseqüências da rotina exacerbada e os sentidos e significados do trabalho; criando uma situação de ansiedade nas pessoas, que não sabem os riscos que estão correndo e a que lugar irão chegar, colocando em teste o próprio senso de caráter pessoal. Nas próprias palavras do autor, caráter é (...) o valor ético que atribuímos aos nossos próprios desejos e às nossas relações com os outros, ou se preferirmos ... são os traços pessoais a que damos valor em nós mesmos, e pelos quais buscamos que os outros nos valorizem (p. 10).

Para Sennett, o novo capitalismo afeta o caráter pessoal dos indivíduos, principalmente porque não oferece condições para construção de uma narrativa linear de vida, sustentada na experiência. Ele demonstra, ao utilizar o recurso metodológico de história de vidas, como o trabalhador fordista (exemplificado pela história de vida de Enrico), apesar de ter o seu trabalho burocratizado e rotinizado, consegue construir uma história cumulativa baseada no uso disciplinado do tempo com expectativas a longo prazo. Já para o trabalhador flexibilizado (como no caso de Rico – filho de Enrico), as relações de trabalho, os laços de afinidade com os outros não se processam no longo prazo, em decorrência de uma dinâmica de incertezas e de mudanças constantes de emprego e de moradia que impossibilitam os indivíduos de conhecer os vizinhos, fazer amigos e manter laços com a própria família. Diante das mudanças no mundo do trabalho, ...como se pode buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações duráveis? (p.27). Este é o grande desafio, segundo o autor, que as pessoas no contexto atual têm que enfrentar.

Nos dias atuais, a sociedade está em contínua revolta contra o tempo rotineiro, com o trabalho taylorista/fordista, e assim parece endossar as palavras de Adam Smith: a rotina embrutece o espírito, sendo o trabalho de rotina degradante (p. 41). Neste sentido, Sennett considera que a sociedade procura resolver o problema da rotina com a reestruturação do tempo, com instituições mais flexíveis, criando novas formas de poder e controle, sendo este um segundo elemento central de sua problematização. As novas formas de poder da flexibilização apresentam-se num movimento estrutural que reúne: a reinvenção descontínua de instituição, ou seja, uma total ruptura do presente com o passado como forma de atacar a burocracia; a especialização flexível, isto é, ... as empresas cooperam e competem ao mesmo tempo, buscando nichos no mercado que cada uma ocupa temporariamente, e não permanentemente, adaptando a curta vida de produto de roupas, têxteis ou peças de máquinas (p.59); a concentração de poder sem centralização, que aparentemente parece dar ao trabalho em equipe maior controle sob o trabalho que desenvolve, mas na verdade quem decide o que fazer e quando, ainda é o capitalista, restando aos trabalhadores apenas como fazer suas atividades.

Esta nova estrutura de poder cria novas formas de controle, como por exemplo o trabalho em casa, no qual troca-se “o controle face-a-face” pelo controle eletrônico.
A flexibilidade do tempo requer uma flexibilização também do caráter, caracterizada pela ausência de apego temporal a longo prazo e pela tolerância com a fragmentação. Por esta razão Sennett argumenta que o trabalho flexível leva a um processo de degradação dos trabalhadores de ofício, pois com a introdução de novas tecnologias organizacionais, o trabalho tornou-se fácil, superficial e ilegível. Exemplifica com o caso dos padeiros de Boston que há vinte e cinco anos, na sua maioria, eram gregos e filhos de padeiros, sendo o seu trabalho caracterizado pelo contato direto com a massa do pão, com o calor dos fornos e o desgaste físico que a atividade exigia. Atualmente a padaria transformou-se numa delicatessen, fundamentada nos princípios da organização flexível, e socialmente não é mais um “estabelecimento grego”.

Com a automação da padaria o pão tornou-se virtual, uma representação de tela para os padeiros, tendo como conseqüência a ilegibilidade da sua própria atividade realizada no referido estabelecimento, onde o trabalho tornara-se degradante porque não era mais necessário fazer pão ou ser padeiro; os laços sociais com o trabalho são rompidos, há uma perda de identidade social que o “ser padeiro” lhes conferia.

No regime flexível as dificuldades sempre se consolidam no ato de correr riscos, as próprias incertezas das organizações flexíveis impõem aos trabalhadores correrem riscos com seus trabalhos, colocando em prova o caráter pessoal. A nova ordem concentra-se na capacidade imediata, não leva em conta que acumulação dá sentido e direito às pessoas; e daí a preferência do capitalismo pelos mais jovens, por serem mais adaptáveis às formas flexíveis de trabalho. Os riscos, além de colocar em questão o senso de caráter, propiciam aos indivíduos um sentimento de esvaziamento completo em todos os sentidos (moral, social, cultural ou político). O exemplo da história de Rose, apresentada pelo livro, demonstra como o risco se tornou tão desnorteante e deprimente no capitalismo flexível.

Neste sentido, a nova ética do trabalho contribui para tal degradação humana.
A ética do trabalho nos dias de hoje é o campo na qual a profundidade das experiências é contestada, fundamenta-se no trabalho em equipe, onde os trabalhadores precisam ser polivalentes e adaptáveis às circunstâncias. É um cenário onde as relações humanas são uma simulação teatral, lugar de um poder sem autoridade.

Um ponto claro na discussão de Sennett é que embora o trabalho flexível tente romper com a rotina e a burocracia, ele não conseguiu ainda superar o trabalho fordista, mas, pelo contrário, precarizou as relações de trabalho e os próprios homens ao extremo, assim como também a ética do trabalho em equipe não superou a ética da rotina; as duas convivem em uma relação dialética.

O trabalho em equipe gera um novo tipo de caráter, onde o homem motivado dá lugar ao homem irônico, em decorrência de viver em um tempo flexível, sem padrão de autoridade e responsabilidade. Por isso o grande problema é construir uma história de vida em um capitalismo em que as pessoas estão à deriva. A resposta para esta questão encontra-se na maneira como as pessoas enfrentam o fracasso.

Na atualidade o fracasso é um fenômeno social que atinge todas as pessoas, é o grande tabu moderno, para o qual os livros de auto-estima não dispõem de fórmulas prontas. Os tabus que rondam o fracasso significam que ele é uma experiência que muitas vezes se apresenta de maneira confusa, e, portanto, a solução para enfrentar tal problema precisa ser coletiva, é através das experiências compartilhadas que se encontra a saída. No livro a história dos programadores demitidos da IBM mostra que para se enfrentar o fracasso é necessário recuperar o senso coerente entre o eu e o tempo, através da discussão partilhada dos problemas com os outros. E por isso, um senso de comunidade e de caráter mais amplos se fazem necessários para combater o novo capitalismo, numa sociedade em que as pessoas estão cada vez mais condenadas a fracassar.

Outro grande dilema desafia o caráter neste novo capitalismo: quem precisa de mim, em um regime onde as relações entre as pessoas no trabalho são superficiais e descartáveis e os laços de lealdade, confiança e compromisso mútuo se afrouxam em decorrência das experiências de curto prazo? O problema do caráter nesse tipo de capitalismo é que há história, mas não existe narrativa partilhada com os outros e, assim, o caráter se corrói.

O pronome “nós” é um perigo gigantesco para os capitalistas que vivem da desordem da economia e temem a organização e o ressurgimento dos sindicatos, e por isso, (...) um regime que não oferece aos seres humanos motivos para ligarem uns para os outros não pode preservar sua legitimidade por muito tempo (p.176).

Por fim, o grande mérito do autor deste livro é que de maneira feliz e criativa, aborda as questões sobre o trabalho e caráter numa sociedade que mudou radicalmente, conseguindo combinar narrativas históricas e teorias sociais.
Ao mesmo tempo que recorre às entrevistas, ele também se utiliza de dados estatísticos e econômicos.

Quando explora a problemática da flexibilização demonstra quais são os impactos sociais que este novo regime traz para o trabalho e as suas implicações
sobre a vida pessoal, desde à depressão à corrosão do caráter.

Um elemento importante e fundamental, que se destaca no livro, é como o trabalho assume uma centralidade indispensável nas narrativas de Enrico, Rico, Rose e dos programadores da IBM, mostrando, desta maneira, que o trabalho é uma arena onde as pessoas se afirmam ou se negam em termos de senso de si mesmas, dotando de sentido ou não as suas vidas e se reconhecendo ou não nos outros. O trabalho continua sendo um valor ético, pelo qual sempre nos pautamos para construirmos uma identidade forte e com laços vindouros. 
Embora a temática apresentada esteja se referindo especialmente à realidade norte-americana, com todas as peculiaridades históricas, sociais, políticas e culturais que já conhecemos, ela se aplica também à realidade latino-americana e brasileira.

O livro faz com que o leitor se desdobre diante dos próprios questionamentos que ele traz, questionando sobre as nossas próprias histórias de vida, e sobre como estamos enfrentando os fracassos e construindo as nossas narrativas em um sistema capitalista que valoriza o descartável, o volúvel, o curto prazo, e, acima de tudo, o individualismo. Induz a pensar sobre os nossos laços sociais com os outros, sobre a nossa concepção de caráter, e a fazer a seguinte pergunta: “QUEM PRECISA DE MIM”?

sábado, 20 de outubro de 2012

Resenha de "Psicanálise e educação"

PSICANÁLISE, EDUCAÇÃO PARA O PRESENTE 

Era uma semana em que eu participaria de um fórum sobre educação debatendo com professores, educadores, psicopedagogos, estudantes e pais algumas abordagens teóricas. Ou seja, o que dizem, em seus textos, os pensadores – basicamente ligados à psicologia e filosofia – a respeito da educação. Entre outros, Vigotysk, Nietzsche, Piaget, Paulo Freire e Freud teriam presença garantida. Minha tarefa: representar as idéias do pai da psicanálise no campo da educação. O objetivo estava claramente definido, cada participante com seu teórico “a tira colo”, procurando comentá-lo da maneira mais clara e acessível aos participantes do fórum. Este, concebido, originalmente, para ser uma atividade complementar (acompanhada à distância) na instituição em que trabalho, mas contando inclusive com a participação do público leigo. 

Disposto a compartilhar conhecimentos, principalmente, pela abrangência das abordagens, aceitei o convite e percorri a bibliografia que já possuía sistematizando uma revisão que permitisse minha “defesa” contra os previsíveis ataques que alguns debatedores (conforme me alertou em tom de brincadeira-séria a organizadora do evento) fariam contra o psicanalista e “suas idéias sobre sexo”. Logo pensei que se revelara ali, mais uma vez, a falta de informação, ou até mesmo as referências que se supõem apreendidas, mas que na verdade foram – é bem possível – apropriadas equivocadamente por esses profissionais. Pois bem sabemos, pelo menos os “psi” mais antenados com a leitura psicanalítica, que não se trata ipsis litteris dessa idéia convertida ao engodo. 

O mote para minha apresentação estava dado. Esta consistiria, entre outras, em aparar arestas que distorcem alguns conceitos do pensamento freudiano, para em seguida abordar como um comentador dos postulados psicanalíticos seus apontamentos sobre a educação e sem dúvida da função da psicanálise nas instituições de ensino. 

Pois bem, essa resenha, no entanto, não se reserva a continuar o relato dessa experiência (para a qual prometo uma breve retomada ao final), mas fundamentalmente para alertar o caro leitor que o mercado editorial acaba de colocar à nossa disposição um livro de excelente qualidade. 

Psicanálise e educação – questões do cotidiano é um daqueles livros que nos fisgam já pela sua orelha e quarta-capa respectivamente. Pelo menos para aqueles que, como eu, gostam de provar o sabor que antecede à leitura em doses homeopáticas. O texto destas enunciam sem meias palavras a pobreza da literatura sobre o assunto e se compromete (o que de fato irá cumprir) a apresentar todo o livro com uma linguagem acessível, sem fórmulas prontas “mas maneiras de olhar e pensar a criança o educador e a instituição que possibilitem uma intervenção mais adequada”. 

O livro está dividido em seis breves capítulos (e mais uma conclusão despretensiosa e inteligente): 

® A educação na cultura contemporânea; 

® O ato de aprender e suas dificuldades: uma leitura psicanalítica; 

® O jogo; 

® Agressividade; 

® Sexualidade. 

Não mais que algumas poucas horas dedicadas à leitura desse tão claro e bem escrito trabalho[1] brindam o leitor com uma série de conceitos psicanalíticos. Nem sempre explicitados, o que permite mais fluência à leitura. Simples e diretos todos os capítulos aparecem recheados de interessantes vinhetas de casos ilustrando as idéias apresentadas. 

Como não se trata de um estudo dirigido ortodoxamente a psicanalistas, e este é um de seus muitos méritos, a autora pôde, a meu ver, ser mais superficial (ainda que esta não seja a melhor palavra para explicar tal escolha) ao apresentar conceitos como o complexo Édipo, castração, primazia do falo... justamente aqueles que tão comumente são distorcidos e entendidos como na seguinte equação: Freud = sexo. Todavia não compromete negativamente seu trabalho. Nada que o leitor mais curioso não possa encontrar com as próprias pernas! Leia-se:com sua aguçada curiosidade. 

Um exemplo que confirma a simplicidade do livro aparece no “polêmico” capítulo sobre sexualidade. Nele a autora discorre, mas uma vez, fluentemente acerca das fases da sexualidade enunciadas por Freud em seus ensaios sobre a Sexualidade, sem fazer do capítulo um texto denso e cifrado de informação, por vezes só compreensíveis por aqueles que dominam a linguagem psicanalítica, mas ao contrário, enuncia cada uma das fases (oral, anal, fálica, latência) recheadas de vinhetas – aliás, presentes em todo o livro como já observei; deliciosas, por sua clareza e pertinência: por isso é bom repetir. 

A autora ainda se atreve com toda propriedade e responsabilidade, tratar de temas delicados no capítulo A função da verdade, sem perder as rédeas da clareza. Lidar com questões, ali apresentadas, como a morte, adoção, mentira e culpa, parecem (após a leitura) não mais fazer parte de assuntos tabus dos quais os educadores querem, em muitas situações, passar longe, pela tangente. São apresentados livres de clichês e o que é melhor, suaves. E que fique claro: não suavizados! 

A quem se destina? 

Destina-se ao clínico pois, as problemáticas apresentadas são sem dúvida questões análogas ao cotidiano e são essas crianças, adolescentes, educadores que muitas vezes chegam aos nossos consultórios demandando orientação fora da instituição. 

Aos professores e profissionais da educação em sua gama de possibilidades de atuação. Ampara o educador. É uma verdadeira orientação! 

E sem dúvida – aqui retomo minha dívida de explicar os três primeiros parágrafos – àqueles que participaram do debate sobre educação (garanto que muitos já compraram). Uma das demandas da coordenação do fórum era que o participante da discussão indicasse um texto/livro que pudesse complementar a apresentação. Este deveria ser claro, conciso e preferencialmente instigante. Coincidentemente descobri-o naquela semana e sem pestanejar indiquei-o. Explicado, não? 

Um dos professores da mesa leu e comentou dias depois com ar de muito satisfeito: “sucinto pois vai direto ao ponto, não faz rodeios demasiadamente teóricos, daqueles que chateiam o leitor tentando-o tempo todo a abandonar a empreitada da leitura”. Com isso, meu desejo de compartilhar tal experiência (a da leitura) se acentuou. 

A autora é, evidentemente, modesta ao dizer que o trabalho se limita a ser um ponto de partida; ora, eu diria que vai muito além dessa idéia, pois ainda que não seja um ponto final, de chegada, conduz o leitor a muitos lugares/possibilidades. A professora Renata transita entre autores como Freud, Françoise Dolto, M. Klein, Winnicott e Maud Mannoni sem abandonar o leitor “leigo”, que em outras ocasiões correria o risco de se perder no caminho. E ela o faz com propriedade e segurança sem ser demasiadamente cansativo ou chato para o “viajante” que não cochila com a paisagem. Isso é extremamente significativo. 

Desenvolver um trabalho “psi” com educadores na instituição, às vezes, é muito angustiante. A tal ausência da clareza, “do que fazer”, é sem dúvida o grande empecilho dos resultados positivos. No entanto, agora já há por onde começar. E muito bem, diga-se... 

Sobre a autora: 
Liz Andréa lima Mirim é psicóloga pelo IPUSP, especialista em Teoria Psicanalítica pelo COGEA- PUCSP, mestre em Psicologia Clínicapela PUCSP e doutoranda pela mesma instituição. Atua em consultório particular desde sua graduação. Desenvolveu trabalho nas Prefeituras de São Roque e São Paulo como orientadora educacional e psicóloga clínica respectivamente. Desde 2000 é psicóloga-pesquisadora do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde – instituição que desenvolve trabalhos na linha dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.

[1] Ainda que pequenos “pecados” tenham passado desapercebido pela revisão do texto.

Resenha sobre Nicolau Maquiavel

por Fernando Antonio da Silva 

1. Introdução 

Maquiavel foi um cientista político, talvez o primeiro e o espetáculo dos costumes políticos que descrevia não era agradável, mas ele os reproduzia exatamente sem aperfeiçoar a realidade. A sociedade de convivência de Maquiavel foi marcada pelos conflitos entre o poder divino (Igreja) e o poder temporal (Estado), pelo processo de ascensão do capitalismo: mercantilismo, e principalmente pela Itália não ter realizado a unificação nacional, sendo um conglomerado de pequenas cidades, estados rivais, disputados pelo Papa, Alemanha, França e Espanha. Pela primeira vez a política é mostrada com esfera autônoma da vida social, pois não é pensada a partir da ética nem da religião rompendo com os antigos e com os cristãos, como também não é pensada no contexto da filosofia, passando a ser campo de estudo independente. Política é a forma de conciliar a natureza humana com a marcha inevitável da história: envolve fortuna e virtu. Maquiavel não define Estado, mas inferiu-se que percebe o Estado como poder central soberano que se exerce com exclusividade e plenitude sobre as questões internas e externas de uma coletividade, pois o Estado está além do bem e do mal: o Estado é. 

2. Vida 

Nicolau Maquiavel nasceu em Florença no dia 3 de maio de 1469.Filho de uma família que não era nem aristocrática nem rica, cujo pai era advogado que como um típico renascentista, era um estudioso das humanidades, tendo se empenhado em transmitir uma aprimorada educação clássica para seu filho. Maquiavel herdou do pai o amor aos livros; e da mãe,
mulher religiosa e não privada de cultura, a fantasia poética. Aos sete anos iniciou o estudo do latim, mas não chegou a aprender o grego. Passou sua infância e adolescência interessado nos problemas de seu tempo, participou ativamente da política de Florença, amadurecendo sua inteligência no convívio dos livros do pai e pela observação intensa de seu próprio tempo. Com 29 anos, tornou-se secretário da 2ª chancelaria uma espécie de ministério da República de Florença, encarregado de assuntos diplomáticos, dos problemas internos e das questões bélicas. Realizou várias missões diplomáticas de importância,
envolvendo França, Alemanha, os estados papais e diversas cidades italianas como Milão, Pisa e Veneza. Seus relatórios demonstravam as excepcionais qualidades de lucidez, agudez, concisão verbal e lógica de argumentação que caracterizam suas análises políticas posteriores. A política esteve sempre no centro de suas preocupações refletida em uma obra muito vasta. Todo seu trabalho visava à Itália, a aspiração do povo italiano em criar uma nação moderna e poderosa e a unificação política. Maquiavel considerava os fatores morais, religiosos e econômicos que operavam na sociedade como força, que um governante hábil poderia e deveria utilizar para construir um estado nacional forte, legitimo seria o governo que realizasse a aspiração do povo. Assim O príncipe deveria ser capaz de estender seu domínio sobre toda as cidades Italianas acabando de vez com a discórdia. Em 1502, Maquiavel casa-se com Marietta di Lodovico Corsini, com quem teve quatro filhos e 2 filhas. Em 1510, inspirado por sua leitura sobre a história romana, organizou uma milícia civil da República de Florença. 

Em agosto de 1512, um exército espanhol entra na Toscana e saqueia Prato. Aterrorizados, os florentinos depuseram seu governante Pier Soderini, a quem Maquiavel caracterizou como "bom, porém fraco", e permitiram a volta da família Médici ao poder. Com a brusca interrupção do governo italiano e com a retomada do poder pelos Médicis, Maquiavel é demitido, torturado, preso e obrigado a pagar uma pesada multa. Ele livra-se da prisão e é impedido de retomar sua profissão, passando a morar com a família na propriedade rural perto de São Cassiano que herdara do pai e avós. O ostracismo político avivará sua criatividade intelectual, ele passa a escrever suas obras como O príncipe; Os discursos sobre a 1ª década de Tito Lívio; o livro sobre a história da guerra e por último sua história em Florença. Com as sucessivas mudanças de governo, Maquiavel passa a prestar serviços esporádicos. Em 1527, com a queda do Médici e a restauração da república, Maquiavel que achava estarem findos os seus problemas, viu-se identificado por jovens republicanos como alguém que tinha ligações com tiranos depostos. Então se viu vencido, suas forças esgotaram-se. Foi à gota d'água que faltava. A República considerou-o seu inimigo. 

Desgostoso, adoeceu. Rodeado pelos amigos, guarda o bom humor habitual, morrendo no dia 21 de junho de 1527. Mesmo depois de morto Maquiavel foi posto no Index pelo Conselho de Trento, o que o levou desde então ser objeto de excreção dos moralistas. 

Rosseau em o Contrato Social afirma: Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, deu grandes lições ao povo. Nicolau fala ainda da virtude e da fortuna. A virtude e algo fundamental para se conseguir a fortuna, que para ele nada mas é que uma Deusa boa e ainda diz que a virtude é necessária para se manter no poder, poder este que se funda na força. Maquiavel ao escrever sua principal obra, O Príncipe, criou um "manual da política" que pode ser interpretado de muitas maneiras diferentes. Talvez por isso sua frase mais famosa "Os fins justificam os meios" seja tão mal interpretada. Em O Príncipe, é expresso nitidamente os seus sentimentos e desejos de ver uma Itália poderosa e unificada. Expressa também a necessidade não só dele mas de todo povo italiano de um monarca com pulso firme, determinado que fosse um legítimo rei e que defendesse seu povo sem escrúpulos e nem medir esforços. Para Maquiavel, como renascentista que era, quase tudo que veio antes estava errado. Incluindo os pensamentos e as idéias de Aristóteles. Ao contrário deste,
Maquiavel não acreditava que a prudência seja o melhor caminho. Para ele, a coerência está contida na arte de governar. 

3. Obras 

Em O príncipe Maquiavel mostra a sua preocupação em analisar acontecimentos ocorridos ao longo da história, de modo a compará-los à atualidade de seu tempo. O Príncipe consiste de um manual prático dado ao príncipe Lorenço de Médici como um presente, o qual envolve experiência e reflexões do autor. Inicia com a dedicatória de Maquiavel a Lorenço de Médici, na esperança de um emprego. A obra é dividida em vinte e seis capítulos, que podem ser agregados em cinco partes: capítulo I a XI - análise dos diversos grupos de principados e meios de obtenção e manutenção destes; capítulo XII a XIV - discussão da análise militar do Estado; capítulo XV a XIX - estimativas sobre a conduta de um Príncipe; capítulo XX a XXIII - conselhos de especial interesse ao Príncipe; e capítulo XXIV a XXVI - reflexão sobre a conjuntura da Itália à sua época. 

Cap.1 Os vários tipos de estado e como são instituídos 

É o tema central do livro: Os principados, ou são hereditários, e seu senhor é príncipe pelo sangue, de longa data, ou são novos. Os modos de conquista: Pelas armas alheias, Pelas próprias armas, Pelo talento ou pela sorte. 

Cap. 2 As monarquias hereditárias 

O príncipe deve evitar a transgressão dos costumes tradicionais e saber adaptar-se
a circunstâncias novas e imprevistas. Os estados hereditários são difíceis de conquistar por serem fáceis de conservar. 

Cap.3 As monarquias mistas 

As novas monarquias apresentam dificuldades aos Estados novos. O homem troca de governo com facilidade, esperando pelo melhor, o que acontece poucas vezes. O soberano através da ocupação, ofende os novos súditos, daí o príncipe precisa contar com os habitantes de um novo território para dominá-lo mesmo com exército forte. Depois da conquista os territórios não são vencidos com facilidade, pois o monarca fortalecerá sua posição e punirá os rebeldes. 

Cap.4 Por que o reino de Dario, ocupado por Alexandre, não se rebelou contra os sucessores deste, após a sua morte. 

O reino de Dario era governado por ele e por seus ministros, que o ajudaram a administrar o país. Nesse caso o príncipe tem maior autoridade e os ministros são obedecidos por serem servidores do príncipe, não inspirando uma afeição especial. 

Cap.5 Como governar as cidades ou estados que antes de conquistados tinham suas próprias leis ou arruiná-lo, residindo nele ou permitindo que continuem a viver com as suas próprias leis. 

Cap.6 Os novos domínios conquistados com valor e com as próprias armas 

Se conquistar um Estado é difícil, constituí-lo é ainda mais difícil. Passar de homem comum a príncipe é raro. Poucos indivíduos excepcionais, com virtude e fortuna, conseguiram esta proeza. Exemplos: Moisés, Ciro, Rômulo, Teseu. 

Cap.7 Os novos domínios, conquistados com armas alheias e boa sorte. 

Quem chega ao poder pela sorte, encontrará dificuldades para mantê-lo. Um exemplo é César Bórgia, que conquistou o poder graças à influência do pai, papa Alexandre VI, e não a tendo o perdeu. Ele não conseguiu se firmar na posição que lhe foi dada pelas armas alheias e pela sorte. 

Cap.8 Dos que chegam ao governo com o crime 

Ao tomar um Estado o conquistador tem que determinar as ofensas, que precisa. Executar, e fazê-las toda de uma vez para não ter que repeti-las todos os dias. 
Cometer as injúrias e as medidas dolorosas todas ao mesmo tempo, mas conceder vantagens gradualmente. 

Cap.9 O governo civil 

Esse governo chega pelo favor do povo ou pela graça dos poderosos. Em todas as cidades há estes poderes antagônicos: povo X poderoso e poderoso a oprimirem o povo. Um príncipe prudente deve cogitar na maneira de tornar-se sempre necessário aos seus súditos e de estes terem necessidade do Estado; depois continuaram sendo fiéis. 

Cap.10 Como avaliar a força dos Estados 

Os estados são avaliados pelo seu poder nacional, ou seja pela independência ou dependência de outrem para sua autodefesa. Há os estados que tem dinheiro e homens, e os estados que não podem combater os inimigos. O príncipe, senhor de uma poderosa cidade, não é odiado nem poderá ser atacado. 

Cap.11 Os estados Eclesiásticos 

Para estes, aparecem todo tipo de obstáculos, antes de serem possuídos, por quesão obtidos pelo mérito ou pela fortuna. Ficam sem nenhuma das duas, pois são sustidos pela rotina da religião. As instituições tornam-se fortes que conservam os príncipes no poder. 

Cap.12 Os tipos de milícia e de tropas mercenárias 

A força com as quais o príncipe conserva o seu estado são próprias ou mercenárias. As mercenárias são inúteis e perigosas. Elas não são ligadas ao príncipe, falta disciplina, infiéis, o príncipe retarda a própria ruína na medida que retardao ataque. 

Cap.13 Forças auxiliares, mistas e nacionais 

As forças auxiliares são tão inúteis quanto as mercenárias. Perdem-se, é uma derrota, se ganham, aprisiona quem as utiliza. Nenhum príncipe pode ter segurança sem suas próprias forças. As forças próprias de um príncipe são seus súditos, cidadãos, as demais são mercenárias ou auxiliares. 

Cap.14 Os deveres de um príncipe para com suas tropas 

O príncipe deve não ter outra finalidade nem outro pensamento, nem qualquer outra atividade como prática, senão a guerra. O príncipe sábio nunca deve permanecer ocioso em tempos de paz. 

Cap.15 As razões pelas quais os homens e sobretudo os príncipes, são louvados ou vituperados. 

Uma das qualidades do príncipe é ser realista, é conceber uma república ou uma monarquia como são na verdade, e não como são imaginadas. É necessário que o príncipe tenha a prudência para evitar escândalos pelos vícios que tem. 

Cap.16 A liberalidade e a parcimônia 

E bom ser considerado liberal, mas isto pode gerar opinião contrária. Ao príncipe que vive à frente de seus soldados, em meio a saques, a liberalidade é muito necessária. Quando não se trata de patrimônio próprio ou dos bens dos súditos pode-se ser muito generoso como acontecia com Ciro, César e Alexandre. 

Cap.17 A crueldade e a clemência, se são preferível ser amado ou temido. 

O príncipe deve ser considerado clemente e não cruel, não deve temer a acusação de cruel quando seu propósito é manter o povo unido e leal. O ideal do príncipe é ser amado e temido ao mesmo tempo, entre um e outro é mais seguro ser temido. 
Os homens amam de acordo com o seu arbítrio, mas temem segundo a vontade do príncipe. 

Cap.18 A conduta dos príncipes e a boa - fé 

Há duas maneiras de luta: pela lei e pela força. O príncipe deve saber usar as duas maneiras. Usando a força ele age como um animal, deve imitar a raposa, reconhecendo as armadilhas, e o leão para assustar os lobos. 

Cap.19 Como evitar o desprezo é o ódio evitando o ódio, os outros vícios não representam tanto risco ao príncipe, para não ser desprezado ele não deve ser volúvel, frívolo, efeminado, tímido e irresoluto. Deve temer duas coisas: 1)interna: seus súditos, 2)externa: as potências estrangeiras. 

Cap.20 A utilidade de construir fortalezas, e de outras medidas que os príncipes adotam com frequência. 

Todo príncipe deve dispor de um apoio armado. Sendo impossível armar todos, deverá armar alguns, dando-lhes maior obrigação. Se o príncipe teme seus súditos mais do que os estrangeiros, deve construir fortalezas; em caso contrário não. 

Cap.21 Como deve agir um príncipe para ser estimado.O príncipe deve procurar, em suas ações, conquistar fama de grandeza e excelência. Os indecisos preferem a neutralidade, acreditando evitar perigos, o que os arruína. Demonstrar amor pelas virtudes, honrar os excelentes em cada arte, incentivar o comércio com festas nas épocas tradicionais. 

Cap.22 Os ministros dos príncipes 

Pelos ministros pode-se conhecer o príncipe. Serão bons ou maus de acordo com a prudência do príncipe. O príncipe para manter a fidelidade do ministro, deve honrá-lo, e o ministro deve pensar o monarca sem dar atenção ao que se diz sobre ele. 

Cap.23 De como escapar dos aduladores 

O príncipe escolherá como conselheiros homens de sabedoria, com plena liberdade para falar a verdade, mas só quando interrogado e apenas sobre o que lhes for perguntado. Os conselheiros sábios são devidos à prudência do príncipe em escolhê-los. 

Cap.24 As razões por que os príncipes da Itália perderam seus domínios 

Os príncipes perdem suas possessões pela frouxidão. É defeito comum dos homens não contar com a tempestade quando o tempo é bom. 

Cap.25 O poder da sorte sobre o homem e como lhe resistir 

O êxito depende em parte da fortuna, destino, acaso ou sorte e, em parte da virtude, decisão, empenho ou força própria. A sorte varia e os homens permanecem no mesmo caminho, só terão êxito aqueles cujos métodos se ajustem às circunstâncias. 

Cap.26 Exortação à liberdade da Itália dominada pelos bárbaros 

É um apelo final à família Médici para libertar e unificar a Itália. A história ensina que a derrota e a desgraça propiciam condições oportunas para a libertação. A Itália está consciente da libertação e pronta a seguir qualquer bandeira, desde que surja alguém capaz de levantá-la. 

No livro Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, ou "Discursos" , como também é conhecida à referida obra, foi escrito por Maquiavel quatro anos após haver concluído "O Príncipe", o que justifica suas perceptivas semelhanças com o primeiro. No entanto, o que o distingue de "O Príncipe" é a análise detalhada da república, em que o autor claramente se coloca em favor desta, a apontar suas principais características observadas no decorrer da história e modos de melhorá-la, ou de ao menos mantê-la. Assim, pode-se considerar Maquiavel como sendo, indubitavelmente, um pensador indutivo, utiliza-se de inúmeros exemplos históricos com o fim de sustentar suas afirmações. No entanto, seu propósito não é sempre impecavelmente atingido, mesmo porque a realidade não segue regras e é, portanto, muito mais complexa do que se pode teorizar. 

A obra é começada com a citação da origem das cidades, que podem estabelecer-se devido a um grupo de cidadãos juntar-se a visar maior segurança; a estrangeiros que querem assegurar o território conquistado, a estabelecer, ali, colônias; ou mesmo a fim de exaltar-se à glória do Príncipe. 

As repúblicas nascem com o surgimento das cidades e, assim, constituem três espécies, que são: a monarquia, aristocracia e despotismo. Três que podem evoluir para o despotismo, oligarquia e anarquia, respectivamente. É claro, neste ponto, o pessimismo de como a sociedade é vista por Maquiavel: é a dialética de dois termos, que trata da sucessão entre ascendência e decadência, a formar um ciclo vicioso. Maquiavel acredita, ainda, que todos princípios corrompem-se e degeneram-se, a ser possível ser corrigida somente via acidente externo (fortuna) ou por sabedoria intrínseca (virtu). 

A voltar-se às espécies de repúblicas, chega-se à conclusão de que a sua melhor forma seria o equilíbrio, dito como ser a "justa medida", segundo Aristóteles. Tal equilíbrio pode manter-se através das próprias discordâncias entre o povo e o Senado, já que estes, em conjunto, representam e lutam pelos interesses gerais do Estado. 

O Estado é, então, definido como o poder central soberano; é o monopólio do uso legítimo da força, como diria Weber. As leis são estabelecidas nas práticas virtuosas da sociedade e com o cuidado de não repetir o que não teve de êxito. Por isso, é dito que não há nada pior do que a deixar ser desrespeitada. Se isso ocorrer, tornar-se clara a falha do exercício do poder de quem a corrompe. Em contrapartida, em se tratando de Estado, tudo é válido, desde a violação de leis e costumes e tudo mais que for necessário para atingirem-se as conseqüências visadas: os fins justificam os meios. 

Nessa visão de poder do Estado, é clara a importância da religião, pois em nome dela é feito valer muitas causas em favor do Estado. A religião é, sob a visão de Maquiavel, um instrumento político-é usada de modo a justificar interesses os mais peculiares e, também, como conforto à população, que anda sempre em busca de ideais, a estar disposta até mesmo a conceder sua vida em busca destes. 

O êxito de uma república, consoante o autor, pode ser estrategicamente obtido através da sucessão dos governantes. Se intercalar os virtuosos com os fracos, o Estado poderá manter-se. Mas, se, diferentemente, dois runs sucederem-se, ou apenas um, mas que seja duradouro, a ruína do Estado será inevitável, já que, desse modo, o segundo governo não poderá utilizar-se dos bons frutos do governo anterior. Destarte, cita a importância da república, já que nela os próprios cidadãos escolhem seus governantes, de modo a aumentar a chance de terem-se, consecutivamente, bons governos. 

Com relação à política de defesa, onde há pessoas e não um exército é notada um clara incompetência por parte do soberano, pois é de sua exclusiva competência formar um exército próprio para a defesa da nação. É, também, de extrema importância saber-se a hora própria para instituir-se a ditadura, que, em ocasiões excepcionais, é necessária a fim de tomarem-se decisões rápidas, a dispensar, assim, consultar as tradicionais instituições do Estado. Contudo, ela deve-se instituir por período limitado, de modo a não se corromper e deve existir até quando o motivo o qual a fez precisar-se for eliminado. Após uma análise teórica e comparativa em termos históricos é colocada ainda a importância da fortuna, a qual tem contingência própria e o poder de mudar os fatos. Assim, o autor define o papel do homem na história: desafiá-la. 

Com base na teoria do equilíbrio, conclui-se, então, que o ideal é que se estabeleça um meio termo entre as formar de governo a serem adotadas, a observar-se que a combinação das já existentes pode mostrar-se muito mais eficiente. A forma que se é administrado um Estado deve adaptar-se ao seu contingente populacional, e não as pessoas às suas leis. 

4. Conclusão 

Assim, a contribuição de Nicolau Maquiavel para o mundo é imensa e fantástica. Maquiavel ensinou, através da sua obra, a vário políticos e governantes. Aliás, a obra de Maquiavel entrou para sempre não só na história, como na nossa vida cotidiana atual, já que é aplicável a todos os tempos.É possível perceber que "Maquiavel, fingindo ensinar aos governantes, ensinou também ao povo" e é por isso que até hoje, e provavelmente para sempre, ele será reconhecido como um dos maiores pensadores da história do mundo. 

Referências bibliográficas 

ABBAGNANO, Nicola, História da Filosofia, tradução de Nuno Valadas e Antonio ramos Rosa, Editorial Presença, Lisboa-Portugal, 1984. 
BATH, Sérgio, Maquiavelismo- A prática política segundo Nicolau Maquiavel, série Princípios, São Paulo, Editora Ática, 1992. 
MAQUIAVEL, Nicolau, O Príncipe; comentado por Napoleão Bonaparte; tradução de Torrieri Guimarães e Estratos dos Discursos de Maquiavel acerca das décadas de Tito Lívio; comentados por Napoleão Bonaparte; tradução de Márcio Pugliesi, São Paulo, Hemus Editora, 1977. 
MEGALE Januário, O Príncipe de Maquiavel- Roteiro de leitura, série Princípios, São Paulo, Editora Ática, 1993.

CURSO DE “METODOLOGIA CIENTÍFICA”


APRESENTAÇÃO

Como fazer um trabalho universitário. As ferramentas estão nos  manuais, que não são legíveis, nem práticos. A  catalogação e sistematização do conhecimento não ensinam a fazer.
Vamos falar claro, fácil,  para descobrir que bicho é esse de ABNT.

OBJETIVO

Orientar quanto:
- as normas técnicas vigentes na produção do texto acadêmico;
-  à apresentação do texto acadêmico;
- ao conteúdo e a escolha do tema;
- ao referencial teórico e a revisão da literatura;
- os instrumentos de trabalho; a exploração dos instrumentos de trabalho; a disciplina de estudo.

PÚBLICO

Estudantes, universitários e acadêmicos. Pessoas físicas e jurídicas e pessoas que representam uma empresa ou instituição.


CARGA HORÁRIA
12 horas

DATA E INVESTIMENTO
Sob a conveniência do contratante

Contato: Olavo Botelho
Tel. : 011 2367 4935 / 011 97649 1386

Resenha de Livro - O PASQUIM


Jaguar & Sérgio Augusto
O Pasquim. Antologia Vol. I – 1969-1971
Editora Desiderata, 2006, 352 p.

Memória viva do nosso passado recente, a publicação de O Pasquim – Antologia – Vol I, nos serve como um texto de pesquisa extremamente picante e sugestivo, porém revelador de um sofrimento intenso vivido pelo povo brasileiro ao longo do regime de poder que se instalou no Brasil em 1964.
A Antologia é muito rica na medida que podemos constatar em um documento representativo da angústia vivida naqueles maus tempos, que diante da tensão, o sujeito busca por várias formas de saída. A angústia desencadeada pela escassa autonomia na falta de expressão moveu uma geração de intelectuais em direção a um lugar que pudesse transformá-la em produção.
A obra apresenta textos a partir de 1/06/1969 e traz a publicação realizada do número 1 ao 150. Logo no início, encontramos o estilo bem delineado, característico da intenção destiladora da publicação. No texto Independência, é? Vocês me matam de rir, o parágrafo inicial recorta o termo independência para jogar com o respaldo sustentado pela publicação que se apresenta e a intenção do que se pretende causar. Diz: “Meu caro Jaguar, você me garante que O Pasquim vai ser independente. Tá bem, Jaguar. O Claudius, o Tarso, o Prósperi e o Sérgio Cabral também acreditam nisso? Tá bem, Claudius, Tarso, Prósperi Sérgio. Podem começar a contagem regressiva. Independente, com larga experiência no setor, falo de cadeia (perdão, cadeira)”.
O que parece interessante n’O Pasquim é que a utilização proposital dos deslizes parece deixar as formações do inconsciente para um outro lugar. Ali, onde o ato falho se desnuda da sua função, burla os olhos limitados da censura e convoca o leitor para trabalhar em função do chiste. É um outro tempo que se
apresenta na publicação. É como se fosse obrigatório não confundir os deslizes do sujeito em análise, quando se ocupa da construção de sua verdade, e provocasse no leitor oprimido diante de uma realidade política o desejo de aguçar saídas em função da transgressão.
Conseqüentemente, fica acesa a possibilidade da formação de novos laços sociais.
Nisso O Pasquim cumpriu uma função muito especial. Os laços silenciosos causados em função do que foi publicado criam uma espécie de dívida de toda uma geração perante este instrumento que se tornou de utilidade pública. A intenção híbrida de trazer o político escrito lado a lado com uma inscrição pulsional traz ilustrações que, se sustentando no corpo desejável de uma bela mulher, fala mais que o visto. Assim, a imagem não é somente a imagem; é uma intenção de atravessamento que ao mesmo tempo precisa de um corpo que encarne um desejo de uma gente cambaleada pela opressão.
Fica muito clara a referência ao perigo e o desejo de desafiar em cada leitor uma solução para o impasse, como se vêem nas notas que se somam nos trabalhos apresentados. Quando se refere aos humoristas destaca-se em um P. S. aposto neste mesmo trabalho:
“Não se esqueça daquilo que eu te disse: nós, os humoristas, temos bastante importância para ser presos e nenhuma para ser soltos”.
Nada mais inteligente e direto, ao tempo que aliciador de novos laços.
O perigo sempre estava à vista.
Por estes motivos O Pasquim foi além de tudo uma escola.
Ensinou a burlar a mediocridade linear do pensamento imposto na época pelo poder. Exemplos inquestionáveis desta presença podem ser vistos na publicação de 26 de maio de 1970. Apresenta um texto cheio de recortes que colocam em evidência mensagens contundentes e chamativas, para revelar na literalidade das entrelinhas o alívio da tensão causada. Este texto e trabalho artístico pertencem a Ziraldo e Caulos. Vejamos: ZAGALO ESTÁ DE CASO.
A frase que acompanha a mesma lógica de impressão complementa:
COM PAULO CESAR. E lá nas entrelinhas destas duas frases o que aparece em letras miúdas é: PENSANDO: só acredita na seleção.
Após uma leitura atenta, é impossível não ser atingido pelo riso da quebra de tensão, gerada pelo texto ressaltado e a associação feita com os personagens envolvidos na pseudo-história.
São várias as montagens: TOPO GIGIO É patrocinado pela Gilette; SOMOS CONTRA todos aqueles que dizem que somos contra O GOVERNO. E o cabeçalho adverte: Para quem sabe ler um pingo é letra. O importante não é o texto, mas o que está nas entrelinhas. Ao final, rompe com o dito e diz: “(...) não haverá entrelinhas nestas entrelinhas?”.
A questão é que entre paródias de filmes como LIXOSTORI e entrevistas imaginárias com cognomes de famosos do mundo da literatura e do campo das artes como Proust, Genet, Tchaikovski, Oscar Wilde e outros em 200 OU 300 COISAS que a humanidade foi obrigada a ficar sabendo sobre o comentarista político FAULO PRANCIS, O Pasquim cumpriu uma missão precípua no imaginário brasileiro. Revirou de pernas pro ar a lógica vigilante de um tempo difícil, provando que, quando tudo estiver comprometido, resta o pensamento, ainda que seja para assentar o próprio desejo como fizeram os monges dirigidos por Antonio Pacômio no movimento dos ascetas do deserto durante o tempo do cristianismo primitivo.
Por essas e outras, a leitura de O Pasquim é indispensável, para vermos que o inconsciente não pode se transformar em um pedaço de carne inerte. Ele está sempre presente de forma a dar a cada um pensante formas de se constituir em lugares, os mais insólitos possíveis, na tarefa de produzir saídas frente ao mal-estar que se renova em cada ato.

Henrique Figueiredo Carneiro
Professor Titular do Mestrado em Psicologia da Universidade de Fortaleza
henrique@unifor.br

Velho Amadeu, o carimbamba

Ruth Guimarães

Tinha Amadeu de Queirós completado meio século, quando Plínio Salgado o descobriu, encaminhando-o com todas as honras e todas as deferências, logo de início para o editor Monteiro Lobato.

Velho Amadeu caiu muito depressa do seu sonho. Nem bem saiu A Voz da Terra, a lírica, a linda, a emocionante, a suave A Voz da Terra, a editora faliu. Todos os livros foram por assim dizer, despejados nas calçadas. Cada livro era vendido a dez tostões. Antes dele, Amadeu de Queirós escrevera Sabina e Os Casos do Carimbamba. Depois dele: João, livro que tem uma perfeição lingüística e temática de cristal e água pura. Quarteirão do Meio, pela Editora Globo, A Rajada saiu pela Saraiva na coleção “Livro do Mês”, e o livro de memórias – Dos 7 aos 77 também foi publicado pela Saraiva.

Dizem que os livros e contos de Amadeu de queirós são amargos, mas discordo. Têm a sua realidade, pó força, plasmados que foram em vivência e experiência nem sempre agradáveis. Mas contêm uma bela mensagem de esperança, de otimismo, de fé no homem em si e nas conquistas do espírito. Corações compassivos não faltam na obra de Amadeu, que é um bom.

O governo da Minas, em 1954 houve pó bem fazer justiça á Literatura e se portou de modo lírico e sábio. Recomendou A Voz da Terra, como livro de leitura nas escolas. Grande vitória para o autodidata, que teve na escolinha do avô Policarpo, em Pouso Alegre, a primeira e única escola de sua vida. Não conheceu outra nem outro professor.

No entanto, a Roda da Baruel era uma verdadeira escola de literatura. Velho Amadeu exigia dos moços, em primeiro lugar, a vivência. Sem o conhecimento vivido, nada feito como obra de arte.

-Mas viver todas as coisas? Isto é existencialismo, - dizíamos, na ânsia das generalizações fáceis e falsamente eruditas.

E velho Amadeu, antecipando Somerset Maugham, com uma deliciosa cor mineira:

-Pra saber o gosto da leitoa você não precisa comer uma inteira. Uma costelinha chega.

Em segundo lugar, na questão da ordem, e não da importância, vinha a tremenda, a acirrada questão do ponto de vista, da posição do escritor, da debatida questão da linguagem.

-Se você estiver falando, você, como escritor, a língua tem que ser correta. Na fala, no diálogo, você põe as deturpações que ocorrem naturalmente.

Eu dizia isto ao mesmo tempo em que Mário de Andrade, numa ousadia espaventada, confirmando e afirmando Macunaíma, em plena linguagem escrita de crítica e outros assuntos igualmente graves, escrevia “milhor”, escrevia “pensamentear”, e outras enormidades que arranhavam a grossa epiderme do burguês.

Amadeu de Queirós era, sem favor, a melhor língua de São Paulo, e colocava-se resolutamente do lado da linguagem castiça. Rezava pela cartilha de Eça, tinha a religião da perfeição da forma e a ela sacrificava um pouco a poesia e a emoção. Verdade é que de sua pena saíam primores mármores, mas também me escrevia, com deliciosa simplicidade:

“... e sempre que se sentir contente com a vida, e tiver vontade de se expandir, como gostam de fazer todos os contentes, escreva-me contando o que lhe aconteceu, porque me alegra participar do seu contentamento.”

Amadeu de Queirós representa na moderna literatura alguma coisa que já perdemos: a claridade, o plano, o perfeito, o solar. Como ele, temos Gilberto Amado, um grego dos nossos dias. Na opinião de Amadeu, Mário de Andrade se havia perdido por excesso de pragmatismo, coisa tão fora das cogitações de Amadeu como o inverso, o sentimento puro. Nele está o equilíbrio clássico, e tão faltos de equilíbrio andamos, nós os pobres escritores lunares de agora!

Outro de seus cavalos de batalha era o método. Sentar e escrever, dizia ele. Duas horas por dia. Eu que sou velho, escrevo duas horas por dia, todos os dias. Escrevia sim, com aquela letrinha caprichada, inclinada para a direita, legível, letra que não parecia nem com os garranchos de um escritor, nem com os rabiscos de um farmacêutico. Não jogar nada fora, dizia também. Guarde. Servirá para você traçar a história do seu espírito.

Creio, no entanto, que muito poucos de nós estariam preocupados com o espírito. Éramos juventude turbulenta, tentando voo que importava o espírito? O grupo do Roteiro estava todo ali, na drogaria, vindo fragmentado, um pouco na hora do almoço, um pouco á noite. 

Muitos se filiavam ao materialismo histórico. E andávamos todos ansiosos por um rumo qualquer, que não precisamente o caminho do espírito A esses entusiasmos, Velho Amadeu opunha o seu frio racionalismo:

-Não sou patriota, nem democrata, nem adiantado, não acredito em propaganda, não confio em técnicos não entendo de esportes, nem de Sociologia.

Era uma boa frase e ele adorava frases. Faria inimigos para não perder a deixa de dizer uma. Tinha a pachorra de as anotar, quando ele próprio fazia uma que o agradava, e, um dia, me mostrou o caderno cheio delas.

Vacas Virumque Cano

Ruth Guimarães

O Vale do Paraíba está novamente em fase de mudança total para um novo ciclo. Passamos depressa do velho pastoreio lerdo para as atividades dinâmicas da indústria. E, com isto, os fazendeiros triturados nas engrenagens econômicas, entre a inflação e a transição, têm de sobra razão de queixa.

Vaca é um revestimento precário. Custa caro, come muito, morre á toa. Sue tempo de produção é curto. Dura mais ou menos seis crias. Não sabe escolher caminho, nem comida. Não se desvia de buraco, nem de abismo. Fácil encontrar mortas aquelas preciosidades de custo muito, que, sem nenhuma atenção pelos gastos do dono, rolaram perambeira e estão dando banquete de graça aos urubus. Também é fácil encontrar vaca ervada, isto é, envenenada com erva-de-rato, rêmora e outras lucreciaborgices de que a despensa do mato valeparaibano é farto. O bicho vai andando á toa pelo campo perde o caminho, pousa fora de casa, pra comer precisa chamar no berrante e no ocô! Ocô! Pra lamber o sal, precisa chamar. Se não chamar, fica por lá. Sai da estrada, caminhão pega, patrulheiro do DNER multa o dono. Deita na linha da ferrovia, o trem pega, da um trabalhão para tirar o corpo de lá. Fazendeiro tem que estar ali, noite e dia, tomando conta. Quando a gente diz que “sêo” Fulano possui duzentas vacas, - engano! Duzentas vacas bem folgadas possuem o “sêo” Fulano, de criado ás ordens delas. Almocinho no cocho, chamar pra almoçar, chamar pra jantar, banhinho de carrapaticida, de tempo em tempo, sal duas vezes na semana, berçário dos filhos, vacina, raspinha de fava-de-santo-inácio, tirar o leite em hora certa, senão é uma latomia dos pecados, berro pra mais de metro.

E tem muitas que são esganadas. Comem a ração no cocho e das vizinhas. Comem esganadas á moda cachorro, engolem o ar junto com o alimento, vão estufando ,caem pra lá, deu timpanite. Morrem na hora. Veterinário não da jeito. E tempo de chamar? A gente mesmo dá. Pega uma faca de ponta e enfia no bucho de empanzinada. O ar escapa fuuuuuu, alivia a sufocação e o bicho está salvo. O furo no bucho, ai o veterinário cura. Dá tempo. Ainda tem a tal de mamite, que é inflamação no úbere. Inutiliza a vaca, não da mais leite. E tem doença que pega em gente: brucelose, tuberculose, aftosa. Vaca morre até de parto.

-Se o investimento é tão ruim assim, como ainda há gente no negócio do leite?

Depoimento do pequeno produtor:

- O leitinho sempre dá um pouco

Depoimento do produtor mal-sucedido:

-Com o preço aviltado não dá pra ir.

Depoimento da mulher do produtor mal-sucedido:

-È. Mas todo dinheirinho que ele arranja é pra comprar vaca.

-Não seria melhor vender as vacas e ir cuidar de outra coisa?

Seguimento das declarações do produtor mal-sucedido:

-Cuidar de que? Eu só sei cuidar de vaca...

Depoimento do vizinho (um produtor bem-sucedido):

-Se ele soubesse cuidar de vaca, não estava nesse miserê.

-E se o senhor vendesse parte da terra?

-Não posso. Terras que foram do meu pai, do meu avô. Eu chego naquele altinho, aquele ali, as terras estão rindo pra mim.

(É isso aí!).

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Tempos de içá

Ruth Guimarães

Em uma de minhas crônicas, chamada comidas e preconceitos, eu disse que quem quisesse estudar os preconceitos culinários da família brasileira teria assunto para um volume. Pois o que se deixa de comer, ou beber, por motivos que, quando mais não seja, são pitorescos, forma legião. Galinha que tenha os pés pretos, por exemplo, legorne porque é sem sangue, ovos brancos, que não tem sustância, carneiro, porque chora pra morrer, cabrito, porque é “aspre”, chá, não estou doente, verdura, não sou coelho. Nem peixe curimbatá, porque come terra, nem bezerro nonato, nem vísceras, nada. Comida de brasileiro é leitoa assada, frango de leite, costeleta, lombo de porco, arroz com feijão.

E no entanto, É chamada içá, e também tanajura, a formiga saúva, fêmea, quando pejada de ovos. Usa as asas, de que então é dotada, para se acasalar, no voo. Trata-se da Atta Sexdens, a respeito da qual se gas­tou um rio de tinta.

No final de outubro, em dia calorento de sol, depois de uma tempestade, é certo que dos formigueiros partem centenas de milhares de içás e mais os seus companheiros, cujo nome é bitu, ou içá-bitu, e realizam, nesse dia esplendoroso, o voo nupcial. Esse é dia de co­lheita de formiga. No interior, nas roças, em terras vermelhas, à boca dos formigueiros, posta-se a meninada, ou corre atrás dos insetos que estão em vias de pousar no chão, tonteando-as com ramos bem enfolha­dos. Não se trata de esporte, embora dia de içá seja dia de festa. Colhe-se o inseto para comê-lo.

Conta Cornélio Pires que o paulistano era apelidado pelo san­tista de comedor de formiga, mas esse remoque vem dos dias de antanho.

A içá é consumida torrada, assada, moqueada, com farinha, com molho apimentado. Era tão comum, na era colonial, que foi oferecido ao Conde de Assumar, quando parou para refeição entre Jacareí e Caçapava, numa fazenda. O conde recusou-se a comer tal manjar, que considerou muito esquisito.

O livro de receitas "O Cozinheiro Nacional", da Livraria Gar­nier, diz que içá torrada tem gosto de camarão. Carlos Matos, in "In­setos no Folclore", de Karol Lenko e Nelson Papavero, diz que içá tor­rada cheira a carrapato. A içá é não só comida, mas também bebida. Ma­cerada na pinga, dá-lhe um gosto apreciado por muitos. De mel, dizem. Também é remédio (a içá com pinga), depurativo e fortificante.

Fortificante deve ser, e dos bons, pois se trata de ovos de formiga, caviar caipira, talvez com o mesmo valor nutritivo do caviar da ova de esturjão.

Monteiro Lobato gostava de içá.

Que se trata de culinária indígena, dá-nos testemunho An­chieta. Afirmava que os índios assavam formigas em vasilhas de barro. Essas formigas cortadeiras.

Nos mercados do Vale do Paraíba, até mais ou menos duas déca­das, vendiam-se pratos de içá torrada, misturada a farinha de man­dioca. O acepipe vinha das roças, em sacos brancos, muito bem lavados e tinha grande aceitação.

Pois é... comida de brasileiro é leitoa assada, frango de leite, costeleta, lombo de porco, arroz com feijão. E formiga!