terça-feira, 16 de abril de 2013

Zizinho foi um poeta. E viveu poeticamente.

Texto de Joaquim Maria Botelho 

Casou-se, em 1949, com a prima Ruth, sua melhor e mais querida amiga. E passou a vida pedindo a Deus que lhe permitisse morrer antes dela, porque não suportaria perdê-la. Foi atendido no dia 9 de outubro de 2001, abatido pelo mal de Alzheimer.
 
O casal viveu em São Paulo os primeiros anos do casamento. Zizinho trabalhava na Estrada de Ferro Central do Brasil e Ruth no Laboratório Torres e em algumas editoras. Mas, sempre que podiam, ficavam períodos em Cachoeira Paulista, na chacrinha herdada do avô, o guarda-chaves Juca Botelho. 

No começo de 1955, decidiram mudar-se para cá. Tinham três filhos pequenos – e eu na barriga – e queriam a tranquilidade de vê-los brincando e crescendo em lugar saudável, em contato com a terra e com animais. Ruth pediu remoção e assumiu cadeira no Colégio Valparaíba. Para ela não foi difícil. Graduada em Letras, num tempo em que o grau universitário era raro entre as professoras, e já autora de dois livros festejados pela crítica, tinha numerosos pontos de vantagem sobre os competidores e podia escolher qualquer escola que lhe aprouvesse. Para completar o plano, Zizinho, aventureiro e sonhador, abandonou o emprego promissor na estrada de ferro e resolveu que conseguiria trabalhar em Cachoeira Paulista ou em qualquer cidade próxima. Não perdia, nada, em sua opinião. Seu pai, Antonio Botelho, era o agente da estação Roosevelt da Estrada de Ferro Central do Brasil, seu chefe e por isso mesmo motivo de inveja entre os colegas. Chamavam-no de Botelhinho, em mal disfarçada censura por uma suposta preferência do agente pelo filho, em detrimento dos profissionais da área. Correto, dono de um código rígido de ética pessoal, Zizinho mortificava-se com a situação. Por isso, a mudança de cidade e de emprego não o incomodou. Muito depressa, conseguiu ocupação como laboratorista em uma firma de fotografia, na cidade de Lorena. Trabalhava à noite, quando Ruth já havia chegado a casa, das aulas do colégio. Trabalho exaustivo e inexpressivo, pelo menos serviu-lhe de escola para transformá-lo no excelente fotógrafo que foi. Aprendeu a composição química dos reveladores, fixadores e banhos de parada. Lia avidamente sobre história da arte, composição, estética. 

Já atuando como fotógrafo, ele próprio construiu o ampliador, ele próprio comprava os químicos e misturava as soluções de nome difícil, como hidroquinona e hipossulfito. Todos nós o ajudávamos a estender, secar e cortar retratos. Menino, muitas vezes eu fazia as entregas das encomendas. Mais tarde, Marcos e Júnia também desempenharam a função. Papai tentou me entusiasmar pela técnica, mas confesso que não consegui me interessar pela fotografia. Marcos, por esse tempo, era quem começava a se animar pela carreira do pai e era quem mais aproveitava os momentos com ele, no laboratório. 

Zizinho foi homem extraordinariamente devotado à mulher e aos filhos. Alegre e carinhoso. Em casa, à noite, tocava violão e cantava, com todos os filhos em volta. Apreciava música clássica e nos incentivava a ouvir. Ensinou-nos a dançar. Ele e Ruth escreviam e montavam peças de teatro, das quais participavam amigos, alunos, e nós também. Foram, sempre, verdadeiros agitadores culturais na cidade. 

Para dar ideia da força desse casal: Zizinho teve tuberculose em 1961 e por decisão de Ruth combinaram que fariam o tratamento em casa. Foi cercado de todos os cuidados, remédios, esterilização de roupas e utensílios e acompanhamento médico do velho amigo da família e primo torto dos dois, Dr. Darwin Aymoré do Prado. 

Em 1964, um problema de saúde de Marta, a filha mais velha, levou a família de volta para São Paulo. Zizinho, que podia trabalhar em casa, e, portanto, com horários flexíveis, assumiu alegremente o papel de cuidar dos filhos, enquanto Ruth escrevia e lecionava. Era um zero à esquerda, na cozinha, porém. Era capaz de, fervendo água, deixar queimar. Por isso, eu fui destacado para juntar-me à comitiva e administrar a casa, em Cachoeira, seis anos depois, em 1970, quando a nefrite do nosso irmão Antonio José exigiu tratamento em clima quente. Por dois anos, a família viveu repartida. Metade em Cachoeira, metade em São Paulo, onde Ruth ficara para não perder o emprego na editora Cultrix. 

Zizinho foi fazer faculdade já aos 53 anos. Os filhos estavam crescidos. Ruth era efetiva na cadeira de Português. Ademais, ainda que amasse a fotografia, com a abertura de modernos laboratórios, revelações no mesmo dia (ainda não havia a tecnologia para revelação em uma hora), agências que ofereciam o pacote completo para casamentos, por exemplo, o mercado ia ficando restrito para “retratistas” como ele. Pois Zizinho enfrentou o vestibular, passou com honras, sofreu o trote como qualquer calouro – divertiu-se ao chegar a casa com a cara pintada e a cabeça raspada – e foi cursar Letras, na Faculdade Teresa D’Ávila, em Lorena. 

Em 1975, penúltimo ano da faculdade, participou do Projeto Rondon, na cidadezinha de Uruçuí Preto, no interior do Piauí. 

Tornou-se professor, depois, da mesma faculdade, onde formou centenas de alunos que devem a ele o gosto pela arte.
 
Achei, há algum tempo, um papel dobrado com uma experiência literária de meu pai. Trata-se de um trabalho solicitado por um de seus professores da faculdade e devia responder a seguinte pergunta: “O que estou fazendo aqui?”. O texto mostra quem ele era. Para mim não seria preciso esse testemunho para que eu soubesse quem era meu pai. Foi o melhor amigo de minha mãe – e só isso já teria bastado para que eu o admirasse. Mas era mais do que isso. Um homem especialmente ético e especialmente amoroso. Foi meu herói e foi meu amigo.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Um tal de Zé


Por Júnia Botelho
(texto editado. Versão original vencedora do Prêmio Talentos da Maturidade, do Banco Real, hoje Santander, em 1997)

(...)
José.
Ficou velho. Odiou tanto essa condição, se “arrependeu” de ficar velho, dizia, que preferiu morrer. Abandonou os compromissos sociais “agora que sou velho não tenho obrigação de nada, posso tudo, eu faço o que eu quero”; despiu máscaras, despiu terno, despiu casca.
A velhice desnudou dignidade, desnudou condição humana. Só não conseguiu tirar-lhe essência: a vida que teve, reproduzida nas vidas que fez, biogenéticas ou não.

Esse é o tal de Zé
(...)
José ele se chamava. Fotógrafo. Sua máquina era seu terceiro olho, aquele que nos desvenda o mundo. Apreciava tudo com muito cuidado, meticulosamente. Esperava a luz apropriada, preocupava-se até mesmo com a direção do vento. Outro Zé, desta vez o “seu” Zé Barbeiro, homem simples, que entendia muito bem do seu métier de fazer barbas e cabelos, e só, estranhava o procedimento de procura de perfeição de seu homônimo:

“dona Ruth, acho que o ‘seu’ Zizinho ‘tá ficando maluco. Ele ‘tá ali agachado no meio do mato, tirando retrato de pito-de-saci!”.

Sempre querida FATEA
(...) O instrumento de trabalho de José era o olhar, a máquina extensão. Ele piscava – a máquina piscava também, e produzia uma obra de arte. Que diafragma, que foco, que nada! eram retina e pupila, isso sim! Enquadrou a luz, enquadrou a sombra.

A tecnologia calçou as botas de 7 léguas e passou por cima de nossas cabeças, pensava José. O mundo da produção captação transmissão processamento armazenagem das imagens aperfeiçoa-se, permite uma construção tão perfeita que é difícil dizer se o que vemos é real ou uma reconstrução. Máquinas diferentes... “que história é essa de só apertar um botãozinho?” espantava-se José. Ele não admitia as simplificações, porém sua escolha não impedia os passos da tecnologia. Aos poucos foi sendo dispensado de suas funções, já não mais ensinava a ver. E cegou.

Rio Paraíba do Sul
1921 foi quando nasceu meu pai. No Vale das Cidades Mortas de Monteiro Lobato. No vale do rio que se chama Paraíba, rio que sai do Estado de São Paulo e chega ao Rio de Janeiro, acompanhando o viajante, volteando, ondeando, ilhando, cantando. Encantando o sol. Mas gritando de dor, pois está doente.
Meu pai e o rio. Entre rio e homem justapostos se estabeleceram afinidades, intimidades e conflitos que se efetivaram numa interação de profundos efeitos.

(...) Antes de cegar, meu pai enxergava as feridas do rio, fotografava homens que o sangraram.
Como não podia lutar contra Deus e Seus mandamentos, contra o câncer que lhe comia a carne, contra o Alzheimer que lhe carcomia o cérebro e também a alma, então dedicava-se a fotografar a miséria exposta do seu amigo rio. Viu o que matava o seu companheiro de desventuras no entanto esse homem não tinha mais tempo. O rio claro de sua infância sofria tanto quanto ele, chorava tanto quanto ele.

(...) Ah! Mas José estava morrendo... estava tão exangue, sentia-se tão inútil, não podia fazer mais nada.
Oras, mas o rio também tinha que tomar uma atitude! Tinha que ser fiel àquele que já não podia estar ao seu lado. Mas esse rio também envelhecia. E os finais de tarde eram cada vez mais purpúreos, manchando os olhos. Estavam os dois agonizando.

(...) O olhar que José tinha para seu rio era muito afetuoso.

 (...)
Mesmo se formos bons para o rio, às vezes ele pode ficar colérico. Ele enche, incha, transborda, atravessa seus limites e invade. Depois se arrepende, se acalma, volta, esvazia. Como se nada tivesse acontecido. Nem vê o que deixou para trás. Destroços não lhe dizem nada, somente coisas no caminho.

(...)
José era professor. Educador. Falava alto, dogmático, dono da verdade. E brigava por isso.
Ai! daquele que jogasse lixo no seu amigo rio! Não usava a palavra preservação porque rótulos não combinavam com ele; não queria saber de ecologismos, meioambientalismos.
Muito falatório e pouca mão na massa não adiantam nada. A casa está ruindo, todos estão vendo e quem é que pode fazer alguma coisa?
Os predadores estão no seu cérebro e no do rio, é preciso agir. “Eu não mudo nada no mundo, que minha presença ou ausência não faz diferença” diria José, “saio eu, daqui a pouco tem outro no meu lugar. Mas o rio morre e morre tudo em volta. Seca, esturrica, apodrece, cheira mal, faz adoecer e o círculo se fecha e então fica mais difícil de resolver. Quem é que pode ouvir este meu grito?”

(...)
É. Acredito que ele teria gostado de falar disso. E para finalizar tocaria uma modinha no seu violão, naquele jeito seresteiro e boêmio.
Foto de Sebastião Albano


Envelhecer tem certas vantagens, as pessoas mudam de opinião sobre o que é certo e o que é errado. Já não tem mais importância alguma ser seresteiro. Melhor dizendo: é até mesmo valorizado.




(...)
José não desistiu, não. Ele agora está morando na história de Guimarães Rosa, à terceira margem do rio. E só sai de lá depois que seu amigo rio parar de sangrar. Ele também sangrou. E sabe o quanto doeu. Então ele não pode se calar. Nós, os filhos todos do tal de Zé, aqueles que ele gerou, aqueles que ele criou, aqueles que ele educou, aqueles que ele ensinou a ver e a enxergar, pedimos: por favor, tirem nosso pai da terceira margem.

Falar com meu Pai

Parler À Mon Père - Céline Dion 
Tradução de Júnia Botelho

Eu gostaria de esquecer o tempo 
Por um suspiro, por um instante 

Um parêntese após a corrida 
E partir para onde meu coração me empurra. 
Eu gostaria de encontrar minhas pegadas 
Onde está minha vida, onde é meu lugar 
E guardar o ouro do meu passado 
No calor do meu jardim secreto. 

Gostaria de cruzar o oceano 
Cruzar o voo de uma gaivota 
Pensar em tudo o que vi 
Ou até mesmo ir em direção ao desconhecido. 
Eu gostaria de roubar a lua 
Gostaria até de salvar a terra 

Mas, antes de qualquer coisa, eu queria falar com o meu pai. 

Falar com o meu pai 

Eu gostaria de escolher um barco 
Não o maior nem o mais bonito 
Eu o abarrotaria com as imagens 

E com os perfumes de minhas viagens. 
Gostaria de parar para me sentar 
E encontrar no poço de minha memória 
As vozes dos que me ensinaram 

Que não há sonho proibido. 

Gostaria de encontrar as cores 
Do quadro que tenho no coração 
Desse cenário de linhas puras 
Onde eu o vejo, o que me tranquiliza. 
Eu gostaria de roubar a lua 

Gostaria até de salvar a terra 

Mas, antes de qualquer coisa, eu queria falar com o meu pai. 
Falar com o meu pai 
Eu gostaria de esquecer o tempo 
Por um suspiro, por um instante 
Um parêntese após a corrida 
E partir para onde meu coração me empurra. 
Eu gostaria de encontrar minhas pegadas 
Onde está minha vida, onde é meu lugar 
E guardar o ouro do meu passado 
No calor do meu jardim secreto. 

Eu gostaria de partir com você 
Eu gostaria de sonhar junto com você 
Sempre procurar o inacessível 
Sempre ter esperança no impossível. 

Eu gostaria de roubar a lua 
E por que não ? salvar a terra 
Mas antes de qualquer coisa, acima de tudo, eu gostaria de falar com meu pai 

Falar com meu pai.

quarta-feira, 20 de março de 2013

CONCEITO DE ÉTICA

José Renato Nalini

1.1 Introdução 

A ética está em todos os discursos. A propósito de qualquer acontecimento, levantam-se as vozes dos moralistas a invocar a ne­cessidade de reforço ético. Ética, infelizmente, é moeda em curso até para os que não costumam se portar eticamente. Por isso, com­preensível que muitos já não acreditem no termo ética. Trivializou-se o chamado à ética, para servir a qualquer objetivo. Além disso, a uti­lização excessiva de certas expressões compromete o seu sentido, como se o emprego freqüente implicasse em debilidade semântica. Isso parece ocorrer com os vocábulos JUSTIÇA, LIBERDADE, IGUALDADE, SOLIDARIEDADE, DIREITOS HUMANOS e também com o termo ÉTICA. 

A invocação exagerada a tais palavras, em contextos os mais diversos, conseguiu banalizar seu conteúdo. Situam-se em todos os discursos, ensaios e manifestações. Não há mais fronteiras ideológi­cas entre elas: todos se valem do prestígio de seu conteúdo. Ante seu pronunciamento, os ouvidos se amparam em certa insensibilidade, pois acredita-se não mais haver necessidade dessa reiteração. Além de cansativa, seria desnecessária. Os conceitos já teriam sido adequa­damente assimilados. 

O núcleo comum a todas essas palavras é sua evidente carga emotiva. São expressões que se impregnam de sentimento. Distan­ciam-se do sentido racional. Não guardam enunciado singelo. En­cerram a complexidade própria às questões ditas filosóficas. Refor­çam a convicção "de que o objeto próprio da filosofia é o estudo sistemático das noções confusas. Com efeito, quanto mais uma noção simboliza um valor, quanto mais numerosos são os sentidos conceituais que tentam defini-Ia, mais confusa ela parece".[1]

Entretanto, nunca foi tão urgente, como hoje se evidencia, rea­bilitar a ÉTICA. A crise da Humanidade é uma crise de ordem mo­ral. Os descaminhos da criatura humana, refletidos na violência, na exclusão, no egoísmo e na indiferença pela sorte do semelhante, assentam-se na perda de valores morais. A insensibilidade no trato com a natureza denota a contaminação da consciência humana pelo vírus da mais cruel insensatez. É paradoxal assistir à proclamação enfática dos direitos humanos, simultânea à intensificação do des­respeito por todos eles. De pouco vale reconhecer a dignidade da pessoa, insculpida como princípio fundamental da República, se a conduta pessoal não consegue se pautar por ela. 

Somente se vier a ser recomposto o referencial de valores bási­cos de orientação do comportamento, é que será viável a formulação de um futuro mais promissor para a humanidade, perplexa diante de um inesgotável incremento das descobertas científicas, a domi­nar tecnologias as mais avançadas mas ainda envolta no drama da incapacidade de superação das angústias primárias. 

Prometia-se um terceiro milênio de paz, harmonia e ócio sau­dável. Em lugar disso, o inesperado surge para aturdir. Violência e medo se aliam para trazer desconforto à alma e a sólida sensa­ção de falência da moral. Não foi apenas o 11 de setembro de 2001 a mostrar a vulnerabilidade de todos os esquemas de uma inviável segurança. São Paulo, a unidade mais desenvolvida da Federação, teve o seu dia fatídico em 15 de maio de 2006[2]. Reforçar o aparelho repressivo, construir mais presídios, reduzir a maioridade penal, agravar as penas, tudo isso representa paliativo para os efeitos. Mui­to mais difícil é combater as causas. Dentre estas, não é menor a in­suficiência do papel familiar de transmissão de valores, de formador da cidadania, de edificação de uma nova elite moral. A incompetên­cia da educação para incluir a vasta legião daqueles chamados "ex­cluídos" mas que, na verdade, nunca chegaram a ser incluídos na sociedade cidadã, é outro fator de imprescindível enfrentamento. Permeia a todas as análises a carência ética de uma sociedade cada vez mais egoísta, materialista e consumista. Despertá-la para uma responsabilidade individual, cidadã e social é o papel da ÉTICA neste terceiro milênio, que não parece corresponder às expectativas dos otimistas, mas reservar prenúncios nada animadores para a família humana. 

1.2 Conceito de Ética 

Ética é a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade.[3] É uma ciência, pois tem objeto próprio, leis próprias e método próprio, na singela identificação do caráter científico de um determinado ramo do conhecimento.[4] O objeto da Ética é a moral. A moral é um dos aspectos do comportamento humano. A expressão moral deriva da palavra romana mores, com o sentido de costumes, conjunto de normas adquiridas pelo hábito reiterado de sua prática. 

Com exatidão maior, o objeto da ética é a moralidade positiva, ou seja, "o conjunto de regras de comportamento e formas de vida através das quais tende o homem a realizar o valor do bem".[5] A dis­tinção conceitual não elimina o uso corrente das duas expressões como intercambiáveis. A origem etimológica de Ética é o vocábulo grego "ethos", a significar "morada", "lugar onde se habita". Mas também quer dizer "modo de ser" ou "caráter". Esse "modo de ser" é a aquisição de características resultantes da nossa forma de vida. A reiteração de certos hábitos nos faz virtuosos ou viciados. Dessa for­ma, "o ethos é o caráter impresso na alma por hábito".[6] Como os hábitos se sucedem, tornam-se por sua vez fonte de novos hábitos. O caráter seria essa segunda natureza que os homens adquirem me­diante a reiteração de conduta. 

Sob essa vertente, "moral" e "ética" significam algo muito se­melhante. Por isso a aparente sinonímia das expressões "valor mo­ral" e "valor ético", "normas morais" e "normas éticas". Todavia, a conceituação de ética ora adotada autoriza distingui-Ia da moral, pese embora aparente identidade etimológica de significado. Ethos, em grego, e mos, em latim, querem dizer costume. Nesse sentido, a ética seria uma teoria dos costumes. Ou melhor, a ética é a ciência dos costumes. Já a moral não é ciência, senão objeto da ciência. Como ciência, a ética procura extrair dos fatos morais os princípios gerais a eles aplicáveis. "Enquanto conhecimento científico, a ética deve aspirar à racionalidade e objetividade mais completas e, ao mesmo tempo, deve proporcionar conhecimentos sistemáticos, metódicos e, no limite do possível, comprováveis. "[7]

Poder-se-ia mesmo indagar: "Por que, aliás, ética e não moral? 

Impõem-se aqui algumas definições, suficientemente abertas e fle­xíveis, para não congelar, desde o princípio, a análise. A etimologia não poderia nos guiar em nada nesta tarefa: ta êthé (em grego, os costumes) e mores (em latim, hábitos) possuem, com efeito, acepções muito próximas uma da outra: se o termo 'ética' é de origem grega e o moral, de origem latina, ambos remetem a conteúdos vizinhos, à idéia de costumes, de hábitos, de modos de agir determinados pelo USO".[8] A distinção mais compreensível entre ambas seria a de que ética reveste conteúdo mais teórico do que a moral. Pretende-se a ética mais direcionada a uma reflexão sobre os fundamentos do que a moral, de sentido mais pragmático. O que designaria a ética seria não ape­nas uma moral, conjunto de regras próprias de uma cultura, mas uma verdadeira "metamoral", uma doutrina situada além da moral. Daí a primazia da ética sobre a moral: a ética é desconstrutora e fundado­ra, enunciadora de princípios ou de fundamentos últimos. 

A ética é uma disciplina normativa, não por criar normas, mas por descobri-Ias e elucidá-Ias. Seu conteúdo mostra às pessoas os valores e princípios que devem nortear sua existência. A Ética apri­mora e desenvolve o sentido moral do comportamento e influencia a conduta humana.[9] Aliás, identificar as tarefas da Ética pode clarificar o seu conceito. Para Adela Cortina, "entre as tarefas da ética como filosofia moral são essenciais as que seguem: 1) elucidar em que consiste o moral, que não se identifica com os restantes saberes práticos (com o jurídico, o político ou o religioso), ainda esteja estreitamente conectado com eles; 2) tentar fundamentar o moral; ou seja, inquirir as razões para que haja moral ou denunciar que não as há. Distintos modelos filosóficos, valendo-se de métodos especí­ficos, oferecem respostas diversas, que vão desde afirmar a impossi­bilidade ou inclusive a indesejabilidade de fundamentar racionalmen­te o moral, até oferecer um fundamento; 3) tentar uma aplicação dos princípios éticos descobertos aos distintos âmbitos da vida cotidiana".[10]

Se a ética é a doutrina do valor do bem e da conduta humana que tem por objetivo realizar esse valor,[11] a nossa ciência "não é se­não uma das formas de atualização ou de experiência de valores ou, por outras palavras, um dos aspectos da Axiologia ou Teoria dos Valores”.[12] Assim, o complexo de normas éticas se alicerça em valo­res, normalmente designados valores do bom. Há conexão indisso­lúvel entre o dever e o valioso. Pois à pergunta o que devemos fazer? só se poderá responder depois de saber a resposta à indagação o que é valioso na vida?[13]

Toda norma pressupõe uma valoração e, ao apreciá-la, surge o conceito do bom - correspondente ao valioso - e do mau - no senti­do de desvalioso. E norma é regra de conduta que postula dever.[14] Todo juízo normativo é regra de conduta, mas nem toda regra de conduta é uma norma, pois algumas das regras de conduta têm cará­ter obrigatório, enquanto outras são facultativas. As regras a serem observadas para acessar a internet ou para viabilizar um programa de software, por exemplo, são de ordem prática e exprimem uma ne­cessidade condicionada.[15] Elas se incluem no conceito de regras técnicas, ou seja, preceitos que assinalam meios para a obtenção de finalidades. As regras técnicas contrapõem-se as normas, pre­ceitos cuja observância implica um dever para o destinatário. 

A noção de norma pode precisar-se com clareza se comparada com a de lei natural, lembra García Máynez. As leis naturais, ou leis físicas, são juízos enunciativos que assinalam relações constantes entre os fenômenos. Sob o enfoque da finalidade, as leis físicas têm fim explicativo e as normas têm fim prático. As normas não preten­dem explicar nada, mas provocar um comportamento. As leis físi­cas, ao contrário, referem-se à ordem da realidade e tratam de torná-la compreensível. O investigador da natureza não faz juízos de valor. Simplesmente se pergunta a que leis obedecem os fenômenos. Ao formulador de normas do comportamento não importa o proceder real da pessoa, senão a explicitação dos princípios a que sua ativida­de deve estar sujeita.[16]

A norma exprime um dever e se dirige a seres capazes de cum­pri-Ia ou de violá-la. Sustenta-a o suposto filosófico da liberdade. Se o indivíduo não pudesse deixar de fazer o que ela prescreve, não seria norma genuína, mas lei natural. De maneira análoga, careceria de sentido declarar que a distância mais curta entre dois pontos deve ser a linha reta, porque isso não é obrigatório, senão necessário e evidente. É da essência da norma a possibilidade de sua violação. 

Outra diferença pode ser apontada entre a norma e a lei natu­ral ou física. A lei física é suscetível de ser provada pelos fatos e a norma vale independentemente de sua violação ou observância. A ordem normativa é insuscetível de comprovação empírica. "As nor­mas não valem enquanto são eficazes, senão na medida em que expressam um dever ser."[17] Aquilo que deve ser pode não haver sido, não ser atualmente nem chegar a ser nunca, mas perdurará como algo obrigatório. 

Torna-se mais fácil compreender a distinção quando se acena com o ideal da paz perpétua ou da absoluta harmonia entre os ho­mens. É quase certo não se convertam nunca em realidade, mas a aspiração a atingi-Ias é plenamente justificável, pois tendente a con­cretizar algo valioso. Não há relação necessária entre validez e eficá­cia da norma. "A validez dos preceitos reitores da ação humana não está condicionada por sua eficácia, nem pode ser destruída pelo fato de que sejam infringidos. A norma que é violada segue sendo norma, e o imperativo que nos manda ser sinceros conserva sua obriga­toriedade apesar dos mendazes e dos hipócritas. Por isso se diz que as exceções à eficácia de uma norma não são exceções à sua validez."[18] Já as leis naturais, só se validam se a experiência as não desmente. 

A possibilidade de inobservância, infringência ou indiferença humana pelas normas não deve desalentar aqueles que acreditam na sua imprescindibilidade para conferir sentido à existência. O homem é um ser perfectível. Esse pressuposto adquire relevância extrema numa era em que as criaturas se comportam em desacordo com as normas. Pese embora a multiplicação de maus exemplos, a crença é a de que todo ser humano - por integrar a espécie - pode tornar-se cada dia melhor. E essa é sua vocação espontânea. A criatura tende naturalmente para o bem. O papel confiado aos cultores da ciência normativa é reforçar essa tendência, fazendo reduzir o nível de ino­bservância, infringência ou indiferença perante a ordem do dever ser. Ainda que o índice de espontâneo cumprimento dos ditames éticos não seja o ideal, há sempre possibilidade de sua otimização, mediante o compromisso íntimo de observá-los na vida individual. E o grupo tem de atuar no sentido de estimular a boa prática, no auxílio àquele que se afastou do trajeto, para reconduzi-lo à senda original. 

A potencialidade de conversão de um ser humano - aparente­mente vulnerável-, para comportar-se eticamente em seu universo, é uma hipótese significativa de trabalho. Ainda que aparentemente a prática possa demonstrar o contrário, a humanidade só avança se uma grande maioria se convencer de que o homem pode ser recupe­rado. A luta da parcela sensível da humanidade é ampliar esse espa­ço de trabalho comunitário e por diminuto possa parecer tal espaço, tantos e tão desalentadores os maus exemplos, o bom combate con­tinua válido. Sob esse prisma, se justifica o estudo, a pregação e a vivência ética. 

1.3 Moral absoluta ou relativa? 

Moral é expressão que todos conhecem. Adela Cortina subli­nha que "o moral, mais que a moral, posto se tratar de um fenômeno e não de uma doutrina - acompanha a vida dos homens e é captado pela reflexão filosófica em várias dimensões”.[19] Na filosofia do ser, a dimensão humana pode ser definida como dimensão moral; na filo­sofia da consciência, fala-se em consciência moral e aceita-se mesmo um tipo de linguagem que pode ser identificada como linguagem moral. Integram essa linguagem expressões de uso corrente, como justo, mentira, lealdade. É intuitiva a qualquer pessoa considerada normal, a compreensão do que se pretende dizer quando se pronun­cia a palavra moral. 

A intuição moral é tão presente na consciência humana que se pode sustentar carecer de sentido a expressão amoralismo. Ou seja, "pode haver homens imorais em relação a determinados códigos vigentes, mas não existem homens 'amorais', não existem homens para os quais careça de sentido a linguagem moral".[20] Todos têm uma determinada moral e a qualquer pessoa é importante manter preser­vado o seu moral. Para simplificar, moral é a formação do caráter individual. É aquilo que leva as pessoas a enfrentar a vida com um estado de ânimo capaz de enfrentar os revezes da existência. 

Mas tome-se à moral como objeto da ética. A moral como maté­ria-prima desta ciência do comportamento das pessoas em sociedade. 

Os preceitos éticos são imperativos. Para serem racionalmente aceitos pelos destinatários, precisam estes acreditar derivem de justi­ficativa consistente. A norma de conduta moral provém de um valor objetivo ou decorre de uma fixação arbitrária? Ela é norma válida para todos, em todos os tempos e lugares, ou sua validade é histori­camente condicionada? 

Existem ao menos duas posições antagônicas: uma absolutis­ta e apriorista e outra re1ativista e empirista. De acordo com esta, a norma ética tem vigência puramente convencional e é mutável. De acordo com a primeira, a validez é atemporal e absoluta. Uma outra diferença entre ambas: a corrente absolutista proclama o conheci­mento da norma ética a priori. A relativista acredita 'seja de ordem empírica. O empirismo advoga a existência de várias morais e, por­tanto, do subjetivismo. O absolutismo, em lugar disso, propõe a moral universal objetiva. 

Para o absolutista, cada ser humano - ao menos o humano con­siderado normal pelo senso comum, ou seja, poupado de qualquer estado patológico - é provido de certa bússola natural que o predis­põe a discernir, naturalmente, entre o que é certo ou errado. A figura do semáforo moral é elucidativa. Cada pessoa dotada de um míni­mo de consciência já se defrontou com esse fenômeno íntimo. Em oportunidades múltiplas da existência, a pessoa sabe que precisa se definir e optar. Sente-se e identifica-se um sinal verde a indicar pas­sagem livre, um sinal amarelo a determinar precaução e uma luz vermelha com o significado de vedação. Cada pessoa sabe que tanto pode observar como deixar de atender aos sinais. Basta atentar para a sua consciência estimativa, onde reside o seu sentido de valor. Por isso é que, entendendo-a como sensação, Hemingway conceituou moral de maneira bem compreensível, como aquilo "que nos faz sentir-nos bem depois e imoral aquilo que nos faz sentir-nos mal depois".[21]

Não se poderia falar do bom e do mau, da virtude e do vício, não houvesse um critério de estimação e uma instância - a consciên­cia humana - capaz de intuir o que vale. Sem essa noção, não há como prosseguir no estudo da ética. 

Já os relativistas entendem não haver sentido falar-se em valo­res à margem da subjetividade humana. Cada qual saberia estabele­cer a sua hierarquia valorativa, de acordo com as circunstâncias personalíssimas. O bom e o mau não significam algo que valha por si, mas são palavras cujo conteúdo é condicionado por referenciais de tempo e espaço. O bem é fruto de criação subjetiva e a norma moral é mero convencionalismo. 

O resultado dessa contraposição de idéias é que "a tese objeti­vista conduz, no terreno epistemológico, à conclusão de que não há criação nem transmutação de valores, senão descobrimento ou ig­norância dos mesmos. Os valores não se criam nem se transformam; se descobrem ou se ignoram. Uma das missões capitais da ética con­siste precisamente em afinar no homem o órgão moral que torna possível tal descobrimento".[22] Enquanto isso, a tese subjetivista postula autêntica criação de valores por vontade dos homens. Estes formulam, à medida do necessário ou do oportuno, a escala que lhes servirá de parâmetro na conduta inserta naquele momento histórico e de acordo com o estamento a que pertencerem, além de outros fato­res condicionantes da opção concreta em cada oportunidade. 

O desafio é perene e deve trazer ao menos certa angústia ao homem imerso numa sociedade em que o relativismo abrange di­mensões inesperadas. Uma das características da contemporaneida­de é conferir ao foro íntimo uma supervalia. Como se todas as escolhas se justificassem diante da irrestrita autonomia da vontade. À pessoa ética deveria corresponder uma conduta compatível com um núcleo comum de valores, consensualmente aceitos e com permanência na história da humanidade, em lugar da lassidão extrema dos achismos. A legitimar-se toda e qualquer ação, em nome da liberdade de esco­lha, corresponderá a deslegitimação da normatividade. Não apenas na esfera ética, mas na sua expressão jurídica. Seria a porta de retor­no ao caos e à barbárie. 

BIBLIOGRAFIA: 
NALINI, José Renato. Conceito de Ética. In: _________ . Ética Geral e Profissional. 5.ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006. Cap 1. P.23-33. 

[1] CHAIM PERELMAN, Ética e direito, 1996, p. 6. 
[2] No dia 15 de maio de 2006, rebeliões e atentados coordenados na Capital e em várias cidades do interior paulista demonstraram o poder de ar­ticulação da criminalidade e trouxeram pânico à população. As causas das ocorrências ainda merecem análises mas, de qualquer forma, foi manifes­ta a percepção de que não existe incolumidade inexpugnável e que o mal tem condições de semear o terror a qualquer momento, em todos os luga­res, e atingir, simultaneamente, incluídos e não incluídos. Os episódios não se circunscreveram a São Paulo, mas também foram deflagrados no Paraná e no Mato Grosso, dentre outros Estados. Mas os efeitos paulistas fo­ram catastróficos por manterem aprisionada, em seus refúgios domésticos, uma população cosmopolita de milhões de brasileiros. 
[3] ADOLFO SÁNCHEZ V ÁZQUEZ, Ética, p. 12. Para o autor, Ética seria a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. 
[4] Ciência, recorda MIGUEL REALE, é termo que "pode ser tomado em duas acepções fundamentais distintas: a) como 'todo conjunto de conhecimen­tos ordenados coerentemente segundo princípios'; b) como 'todo conjunto de conhecimentos dotados de certeza por se fundar em relações objeti­vas, confirmadas por métodos de verificação definida, suscetível de levar quantos os cultivam a conclusões ou resultados concordantes'" (Fíloso­fia do direito, p. 73, ao citar o Vocabulaire de Ia phílosophie, de LALANDE). 
[5] EDUARDO GARCÍA MÁYNEZ, Ética - Ética empírica. Ética de bens. Ética for­mal. Ética valorativa, p. 12. 
[6] ADELA CORTINA, Ética aplicada y democracia radical, p. 162. 
[7] ADOLFO SÁNCHEZ V ÁZQUEZ, op. cit., p. 13. 
[8] JACQUELINE Russ, Pensamento ético contemporâneo, p. 7-8. 
[9] NICOLAI HARTMANN, Ethik, 2. ed., Berlin, p. 34, apud EDUARDO GARCÍA MÁYNEZ, op. cit., p. 15. 
[10] Op. cit., p. 164. 
[11] MIGUEL REALE, Filosofia ... cit., p. 37. 
[12] Idem, ibidem. 
[13] "Todo dever ser está fundado sobre os valores; ao contrário, os valores não estão fundados, de nenhum modo, sobre o dever ser" (MAX SCHELER, Ética, trad. Hilario Rodríguez Sanz. Madrid: Revista de Occidente, 1941, p. 267, apud EDUARDO GARCÍA MÁYNEZ, Ética ... cir., p. 16). 
[14] Idem, p. 19. 
[15] R. LAUN, Rechtund Sittlichkeit, 2. ed., Hamburg: Verlag vou C. Boysen, 1927, apud EDUARDO GARCÍA MÁYNEZ, Ética ... cit., p. 20. 
[16] Idem, p. 21. 
[17] Idem, p. 22. 
[18] Idem, p. 23. 
[19] Op. Cit., p.178 
[20] ADELA CORTINA (op. cit., p. 178), a sustentar que amoralismo é um conceito vazio. Não há homens amorais porque todos compreendem a linguagem moral. Para quem pretende aprofundar-se no tema, consultar X. ZUBIRI, Sobre o homem, Madrid: Alianza, 1986. 
[21] Morte na tarde, citado por MAURÍCIO ANTONIO RIBEiRO LOPES, Ética e adminis­tração pública, p. 14. 
[22] EDUARDO GARCÍA MÁYNEZ, Ética ... cit., p. 26.

Resenha: Um Corpo Estranho: Ensaios Sobre Sexualidade e Teoria Queer

Louro, Guacira Lopes. (2004). Um Corpo Estranho: Ensaios Sobre Sexualidade e Teoria Queer. Belo Horizonte: Autêntica. ISBN 85-7526-1169, Pp. 92



Resenhado por Ruth Sabat
Centro Universitário Feevale
12 de Maio de 2005





Uma viagem pós-moderna

Para saciar nossa “angústia metafísica”, que tem sede de classificações, poderíamos dizer que o livro Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer, de Guacira Louro, é uma autobiografia-lítero-teórica. Poderíamos dizer, se tal palavra existisse... Façamos de conta que existe!

Os quatro ensaios que compõem o livro de Guacira Louro foram escritos de forma livre, “numa espécie de experimentação”. Não há um caminho em linha reta entre eles, mas há um caminho sem placas indicativas do ponto de chegada ou de partida. É um caminho queer: o meio pode ser o fim, o fim pode ser o começo, o começo pode ser o começo. Nós decidimos. Não há uma ordem. É queer. A começar pela capa, que traz a imagem de dois pés tatuados na epiderme/derme ou na folha de papel? Marcas estranhas, indizíveis... Preparação para o que vem a seguir.

Para ler Um corpo estranho é preciso estar disposta a se deixar levar pela autora, numa espécie de brincadeira de cabra-cega, com olhos vendados e sentidos despertos, pronta para ouvir suas histórias. Uma espécie de viagem pós-moderna. Um road book?
Talvez sim, porque o livro é todo deslocamento e inquietação, seja no ensaio com tom mais literário, no qual Guacira deixa escapar sua paixão pelo cinema; seja no ensaio mais teórico, no qual ela generosamente traduz para nós a complexa fundamentação da teoria queer. A autora também nos dá a conhecer um pouco de sua trajetória ao “Estranhar” o currículo e estabelece relações entre Marcas do corpo e marcas do poder, questionando até que ponto tais marcas não são uma invenção do olhar do outro.

Neste último ensaio do livro, Marcas do corpo, marcas do poder, Guacira demonstra de que formas os corpos e as marcas que os definem e descrevem culturalmente estão implicadas em relações de poder. Dessas marcas, é indiscutível que aquelas que identificam o feminino e o masculino (a saber, os órgãos genitais) são primordiais.

Entretanto, agregadas a elas estão as marcas definidas “a partir dos padrões e referências, das normas, valores e ideais da cultura” (p.75). E é isso que interessa à autora: demonstrar de que forma as características corporais passam a funcionar como marcas de distinção e classificação e, conseqüentemente, como marcas de poder, considerando suas características históricas e culturais.

Buscando apoio teórico em Michel Foucault e Judith Butler, Guacira Louro traz diferentes explicações encontradas na história, que serviram para justificar as desigualdades construídas entre mulheres e homens. Se nos voltamos para os discursos existentes, podemos identificar relações estreitas entre transformações políticas, econômicas e sociais e o modo de olhar para o corpo e a sexualidade em diferentes momentos históricos. Longe de negar a materialidade dos corpos, o que a autora enfatiza:
“são os processos e as práticas discursivas que fazem com que aspectos dos corpos se convertam em definidores de gênero e de sexualidade e, como conseqüência, acabem por se converter em definidores dos sujeitos” (p.80).

Tal asserção pode ser identificada na forma mais recorrente de se conceber a relação sexo/gênero/sexualidade, qual seja, o gênero binário e o desejo sexual necessariamente direcionado para o sexo oposto; esta lógica fundamenta-se, principalmente, no caráter biológico do sexo. Eis aqui a pedra de toque a ser problematizada pela autora, com base nas teorizações da filósofa norte-americana Judith Butler. É preciso questionar a naturalização construída em torno do sexo como destino e as normas regulatórias que legitimam os corpos, como efeitos das relações de poder.

Guacira Louro vale-se do exemplo das drag-queens para ilustrar a desnaturalização dos corpos.

Quando William Sheakspeare escrevia suas peças e utilizava a palavra drag (dressed as a girl), em algumas rubricas do texto para dirigir os atores, não podia imaginar que no século XX esse nome se transformaria em uma das marcas queer. Ao utilizar as drags como exemplo, a autora demonstra como corpos são construídos ou “montados”, imitando exageradamente o sujeito que parodia. Para a autora, esta é uma postura crítica, “na medida em que implica, paradoxalmente, a identificação e o distanciamento em relação ao objeto ou ao sujeito parodiado” (p.85) e, nos permite “problematizar a idéia de originalidade ou de autenticidade”, subverter e transgredir códigos culturais.
A ação subversiva e a transgressão das fronteiras de gênero e de sexualidade são alguns dos principais elementos que permeiam a Teoria Queer. No artigo Uma política pósidentitária para a Educação, Guacira apresenta os pontos centrais dessa teoria, estabelecendo conexões com a Educação, seu campo de atuação. Por meio de breve historicização da homossexualidade, do sujeito homossexual e dos movimentos sociais voltados para os interesses desses grupos, a autora narra o processo de construção das políticas de identidade e nos conduz aos fundamentos da Teoria Queer.

A palavra queer é de origem inglesa e ainda não tem uma tradução a contento para sua utilização nos estudos sobre sexualidade realizados em língua portuguesa. Durante muito tempo, queer funcionou como xingamento para sujeitos homossexuais. Entretanto, num movimento de pegar as armas do inimigo para atacá-lo, o movimento gay e lésbico assumiu esta palavra para se definir ainda como esquisito, estranho, excêntrico, mas, principalmente, para representar “a diferença que não quer ser assimilada ou tolerada” (p.38). A firme determinação de perturbar e transgredir está no cerne da política queer, surgida na década de 90 do século passado. Neste artigo, Guacira deixa muito clara a indissociabilidade entre o comprometimento político e a produção de conhecimento, ao deixar explícitos todas as confluências entre os movimentos sociais e o pensamento ocidental contemporâneo, marcado pela instabilidade de diversas categorias analíticas, dentre elas, o próprio sujeito.

O inconsciente freudiano, a construção discursiva da sexualidade defendida por Michel Foucault, a desconstrução derridiana são as principais proposições que servem de sustentação para a Teoria Queer, desde que utilizadas sempre de modo peculiar e transgressivo. Dito de outro modo, utilizadas “para desarranjar e subverter noções e expectativas” (p.43). Esse percurso traçado pela autora nos leva à Teoria Performativa do Gênero e da Sexualidade – elaborada por Judith Butler –, um dos fundamentos da Teoria Queer. Nesse contexto, o conceito de performatividade, proveniente da lingüística, é utilizado para identificar os modos como os corpos e os sujeitos são discursivamente produzidos. Interessa menos saber como as identidades sexuais hegemônicas são produzidas, e mais, como determinados sujeitos e corpos são nomeados como estranhos, anormais, esquisitos ou queer.

Diante de tais aspectos, a autora traz algumas perguntas: “Como um movimento que se remete ao estranho e ao excêntrico pode articular-se com a Educação, tradicionalmente o espaço da normalização e do ajustamento? Como uma teoria não propositiva pode ‘falar’ a um campo que vive de projetos e de programas, de intenções, objetivos e planos de ação? 

Qual o espaço, nesse campo usualmente voltado ao disciplinamento e à regra, para a transgressão e para a contestação?” (p.47). Mais uma vez, Guacira nos conduz pelos tortuosos caminhos da lógica queer, indicando alternativas de movimentos na intersecção desses dois campos: “A teoria queer permite pensar a ambiguidade  a multiplicidade e a fluidez das identidades sexuais e de gênero, mas, além disso, também sugere novas formas de pensar a cultura, o conhecimento, o poder e a
educação” (p.47). Portanto, este é o exercício maior: estabelecer relações entre Teoria Queer e Educação e pensar como se configuraria uma pedagogia e um currículo queer.
Um exercício nessa direção pode ser encontrado no artigo “Estranhar” o currículo.

Ali, a autora discute em que medida a homossexualidade se torna um limite para o pensamento social construcionista na Educação, questionando de que modo a heterossexualidade normativa é reiterada nas chamadas instâncias pedagógicas.
Estudantes que apresentam comportamentos dissonantes em relação a seus gêneros ou que demonstram interesse por pessoas do mesmo sexo são sempre trazidos por professoras e professores, como exemplos de problemas a serem resolvidos. De novo, a Teoria Queer é utilizada como campo teórico mais produtivo para pensar em tais questões, considerando as rupturas epistemológicas e as propostas que nos traz.

Nessa direção o movimento mais importante consiste em colocar o conhecimento, a pedagogia, o currículo sob suspeita. Como afirma a autora, trata-se “de questionar sobre as condições que permitem (ou que impedem) o conhecimento” (p.65).
Trata-se, ainda, de questionar o tipo de sujeito presente no currículo, analisando o gênero, a sexualidade e outras marcas culturais que o constituem como sujeito hegemônico. Trazer para o currículo a multiplicidade, questionar o já sabido, problematizar o conhecimento são apenas alguns dos caminhos apontados pela autora em direção a um currículo menos centralizador e impositivo. Um currículo que apresente o movimento, a instabilidade e a transgressão como estados produtivos para os sujeitos.

A idéia de movimento, instabilidade, transgressão é desenvolvida em Viajantes pós-modernos, a partir do filme Deus é brasileiro, de Cacá Diegues. “A imagem da viagem me serve, na medida em que a ela se agregam idéias de deslocamento, desenraizamento, trânsito” (p.13), diz Guacira. A metáfora da viagem é utilizada aí relacionada ao gênero, à sexualidade e ao trabalho pedagógico. É por meio da repetição e da continuidade que o trabalho pedagógico funciona constantemente para inscrever “nos corpos o gênero e a sexualidade ‘legítimos’” (p.16). Mas, nesse cenário, há também os corpos desviantes, aqueles que desestabilizam as normas sociais, há aqueles cruzam as fronteiras de gênero e sexuais e, há ainda, aqueles sujeitos que decidem viver na própria fronteira em transgressão permanente. “Esses sujeitos sugerem uma ampliação nas possibilidades de ser e de viver. (...) Indicam que o processo de se ‘fazer’ como sujeito pode ser experimentado com intensidade e prazer. Fazem pensar para além dos limites conhecidos, para além dos limites pensáveis” (p.23). E se terminamos de ler Um corpo estranho... com dúvidas, inquietações e incômodos, isso quer dizer que embarcamos na viagem proposta por Guacira Louro.

Acerca da Autora do Livro
 Guacira Lopes Louro é doutora em Educação e professora do Programa de Pós-graduação em educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Acerca da Autora da resenha
Ruth Sabat é doutora em Educação e professora/pesquisadora do Centro Universitário Feevale – Novo Hamburgo/RS e da Faculdade Cenecista de Osório, Facos – Osório/RS.

José Botelho Netto - biografia



"Através da beleza do preto e branco, o fotojornalista Botelho Netto, também professor, também pai, também marido e também amigo, discutia em seus projetos fotográficos a linguagem da imagem captada".



Botelho Netto é paulista da cidade de Cachoeira Paulista, nascido no dia quinze de janeiro de 1921. Nasceu na Rua Silva Caldas, s/n e morreu na Rua Carlos Pinto, 130, curiosamente na mesma casa, na cidade de Cachoeira Paulista, dia 09 de outubro de 2001. Era o mais velho de quatro irmãos. Ia se chamar Cirilo, mas o seu tio, pai de sua esposa, esqueceu o nome quando estava no cartório e tascou-lhe um José. Seu pai, Antonio Botelho, era chefe de estação e ficava entre Rio e São Paulo e foi em Suzano que fixaram residência. Morava no Torreão do meio.

Zizinho para os amigos, para a esposa, para a turma do ginásio cachoeirense onde ele entrou aos trinta anos para não ser o “marido da professora” e ter sua própria personalidade. Botelho para os colegas de trabalho, para os amigos da faculdade onde aprendeu a amar a linguística, a semiótica, a história da arte. 

Com a esposa, Ruth Guimarães, teve 9 filhos. Uma tal de síndrome de Alport atacou a família mas nem todos manifestaram a doença. Esse casal foi companheiro na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Enquanto moraram em Cachoeira ele era o fotógrafo dos casamentos, dos batizados, dos noivados, dos “anjinhos”. Na praça tinha um alto-falante com sua propaganda: “Você é feio? Isso não é problema para o Zizinho do foto Marta.”

Vieram para São Paulo com os 4 filhos mais novos crescidos, dos nove que tiveram, para dar a estes chances que a cidade pequena não oferecia. Prestou concurso, foi ser professor no Campo Belo, longe léguas da Adma Jafet, travessinha da 9 de julho, em frente ao hospital Sírio Libanês, onde morava. Por quê? Porque se apaixonou pelo nome da rua: “Feitiço da Vila”.

Era apaixonado pelo que fazia. Era professor. Educador. Ensinava a ver. Ensinava fotografia com a técnica da latinha e o furo da agulha. Levava seus alunos para o alto das montanhas, para as trilhas, mandava tirar os sapatos, sentir a grama e a terra. Ensinava os meninos do ginásio fazendo coral de poesias, contando histórias, jogando truco. Ensinava os filhos no cinema falando de composição, triângulo de ouro, foco, luz, cor, saturação. Ensinou a faculdade onde estudou, a Fatea, a montar seu próprio laboratório. E quase passou cimento nos tijolos junto, para mostrar como deveria ser o melhor laboratório do mundo. Era engajado, consciente, e todos eram seus alunos em qualquer conversa que houvesse. Porque sua missão era ensinar. Fazia saraus em sua casa para juntar os amigos linguistas, filósofos, comunistas, poetas, jornalistas, folcloristas, cantadores. O violão levava às discussões e as discussões viravam cantoria. 

Tinha tanta cantoria que animou um grupo de violão e cavaquinho e flauta, com o Bolacha, o Nilton Roseira, e outros, que se chamou “Os Velhinhos Transviados”. E fizeram sucesso até na capital!

Esse homem foi boêmio, fotógrafo, professor, educador, ambientalista. Mas principalmente fotógrafo, e fotógrafo-poeta. Um artista.


Texto de Júnia (carinhosamente chamada de Juninha, Junica), a caçula dos 9.