quarta-feira, 17 de abril de 2013

Imagens do sagrado: entre Paris Match e O Cruzeiro

Noel dos Santos Carvalho - Unicamp
noelsantoscarvalho@yahoo.com.br


TACCA, Fernando Cury de. Imagens do sagrado: entre Paris Match e O Cruzeiro. Campinas: São Paulo, Editora da Unicamp, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009, 200 páginas.

Em 1942, Arthur Miller escreveu um instigante romance, Focus, em que o personagem principal inquire seu perseguidor racista: “Em outras palavras, quando você me olha não me vê. O que você vê?” (MILLER, 2002, p. 180). A pergunta explicita a dupla articulação que envolve a representação. Construímos o sentido de dentro do nosso lugar no mundo onde classe, etnia, nacionalidade, cultura, etc. contam sobremaneira. Entretanto, o objeto do nosso olhar também tem sua própria existência. Como na passagem acima, o resultado dessa relação muitas vezes é tenso.

Howard Becker formulou a questão em termos originais. Para ele, a representação se assemelha a um relato sobre o mundo social, cujo sentido insere-se num contexto organizacional, em que produtores especializados elaboram sistemas representacionais para usuários interessados. Mapas rodoviários, por exemplo, são representações pouco úteis para pedestres, assim como filmes documentários interessam a um público que têm suas atividades voltadas à prática documental ou temas correlatos. A representação, em suma, é produto da ação coletiva de atores sociais interessados na sua produção e recepção, ao contrário das análises formalistas radicais, que se bastam com a busca dos significados endógenos à obra isolada – como se houvesse uma essência artística transcendental. Aqui, para lembrar Baxandall, privilegiam-se os “fatores culturais” que agem sobre a percepção, produzindo as categorias adequadas e competências de fruição. A passagem abaixo ilustra a relação produção/recepção que presidia a realização de uma pintura na Renascença:

O observador deve utilizar na fruição de uma pintura as capacidades visuais de que dispõe, e dado que, dentre essas, pouquíssimas são normalmente específicas à pintura, ele é levado a usar as capacidades que sua sociedade mais valoriza. O pintor é sensível a tudo isso e deve se apoiar na capacidade visual de seu público. Quaisquer que sejam seus talentos profissionais de especialista, ele mesmo faz parte dessa sociedade para a qual trabalha, e compartilha sua experiência e hábitos visuais (BAXANDALL, 1991, p. 48).

As representações, portanto, decorrem da ação coletiva dos atores sociais. Estes possuem as disposições psicológicas para a sua produção e recepção. Nessa perspectiva, elas ganham plasticidade: são verdade e ficção, documentos e construções imaginativas. Uma foto documental, filme ou gravura podem ter significados diversos, dependendo dos usos e contextos em que estão inseridos – obras e usuários. Escreve 
Becker sobre as fotografias documentais:

“Seu significado surge nas organizações em que são usadas, a partir da ação conjunta de todas as pessoas envolvidas nessas organizações, e, assim, varia de um momento e de um lugar para outro. Como as pinturas adquirem seu significado em um mundo de pintores, colecionadores, críticos e curadores, fotografias obtêm seu significado a partir do modo como as pessoas envolvidas com elas as compreendem, usam-nas e desse modo lhe atribuem significado.” (BECKER, 2009, p. 185).

É esta paisagem conceitual que articula o novo livro do fotógrafo e antropólogo Fernando de Tacca, Imagens do sagrado: entre Paris Match e O Cruzeiro. Através de rigorosa pesquisa e primorosa análise de fontes, Tacca deslinda um imbróglio ocorrido há quase sessenta anos, mais precisamente no inicio dos anos 1950, quando desembarcou por aqui o cineasta francês Henri-Georges Clouzot. Depois de tentativas malogradas de realizar dois filmes no Brasil, um dos quais integralmente interpretado por atores negros – o que, diga-se de passagem, o Cinema Novo só faria mais de dez anos depois –, Clouzot publica na França, em 1951, o livro Le chevau de dieux e a reportagem Les possédés de Bahia, na revista francesa Paris Match. Em tempos de nacionalismo à flor da pele, a recepção nativa leu como pode as fotos e a reportagem. A reação indignada foi imediata. A Federação de Culto Afro-brasileiro e intelectuais do porte de Edson Carneiro, Roger Bastide e Alberto Cavalcanti atacaram Clouzot, acusando-o de “colonialista” e “sensacionalista”.

Foto 1. Paris Match 12/05/1951

Foto 2. Paris Match 12/05/1951

Foto 3. Paris Match 12/05/1951

O troco na mesma moeda veio quando a revista de maior circulação nacional da época, O Cruzeiro, de propriedade do magnata Assis Chateaubriand, comprou a briga e produziu sua própria reportagem, As noivas dos deuses sanguinários. A carta do chefe de redação intimando o fotógrafo José Medeiros é um achado. Em tom ressentido e com a honra ferida conclama o fotógrafo a produzir as fotos da reportagem, “PARA LAVAR NOSSA CARA TÃO DURAMENTE ATINGIDA PELA REPORTAGEM DE CLOUZOT...” [sic] (TACCA, 2009, p. 124).

Ocorre que, ao contrário do vaticínio liberal, nem sempre o laissez faire, laissez aller, laissez passer nos meios de comunicação leva “naturalmente” ao caminho das tão esperadas diversidade e originalidade. Como assevera Bourdieu, a concorrência entre redações pela busca do “furo” produz um efeito de campo paradoxal que leva à uniformidade das matérias. Escreve o sociólogo:

... a concorrência incita a exercer uma vigilância permanente (que pode chegar à espionagem mútua) sobre as atividades concorrentes, a fim de tirar proveito dos seus fracassos, evitando seus erros, e de contrapor-se a seus sucessos, tentando tomar emprestados os supostos instrumentos de seus êxitos, temas de números especiais que jornalistas se sentem obrigados a retomar, livros resenhados por outros e dos quais ‘não se pode deixar de falar’, convidados que é preciso ter, assuntos que se devem ‘cobrir’ porque outros os descobriram e mesmo jornalistas que são disputados, tanto para impedir os concorrentes de tê-los quanto por desejo real de os possuir(BOURDIEU, 1997, p. 107-8).

Não foi outro o resultado da disputa entre a Paris Match e O Cruzeiro.Rigorosamente, não há grande diferença entre as fotos de Clouzot e Medeiros. Evidentemente, ao leitor cabe a própria conclusão, e nesse ponto ele é ajudado pelo livro ricamente documentado.

Foto 4. O Cruzeiro, 15/09/1951

Foto 5. O Cruzeiro, 15/09/1951

Foto 6. O Cruzeiro, 15/09/1951

Quem entendeu imediatamente que as reportagens eram semelhantes quanto à representação sensacionalista foi o antropólogo Roger Bastide que “coloca a reportagem de O Cruzeiro como um ‘crime’ da mesma ordem da Paris Match” (TACCA, 2009, p. 154). O meio intelectual calou-se diante da reportagem de O Cruzeiro, sugere Tacca: seja porque Medeiros era conhecido e respeitado por vários dos intelectuais que poderiam se opor à reportagem, seja porque a revista era de propriedade do manda-chuva das comunicações da época, Assis Chateaubriand. Escreve:

Não encontramos nenhuma manifestação, contra ou a favor, sobre a reportagem ‘As noivas dos deuses sanguinários’. Um silêncio sepulcral abateu-se nos jornais e revistas. Esperávamos, depois de uma fúria incontida contra o estrangeiro usurpado de nossa cultura, que ao menos os mesmos jornalistas e intelectuais se manifestassem como fizeram com Clouzot. Alguns caminhos podem ser explicativos. Medeiros era amigo de todos eles, companheiro de trabalho de vários jornalistas, e uma pessoa muito amável, como todos assim se referiam a ele. Já tinha na época uma admiração profissional de seus próprios pares. Junte-se a este aspecto afetivo, a difícil resolução, a questão de colocar-se em oposição a um semanário nacional da importância de O Cruzeiro, com a força devastadora de seu dono, Assis Chateaubriand, e da rede de Diários Associados. Todos silenciaram, menos um, que não era brasileiro e pôde ter uma neutralidade em relação aos fatos (TACCA, 2009, p 154).

O conhecido modus operandi da intelectualidade brasuca deixaria a corda roer para o lado mais fraco: Mãe Riso da Plataforma, a mãe-de-santo que autorizou a reportagem. Esta atraiu a ira da comunidade religiosa, da Federação Baiana dos Cultos Afro-Brasileiros e foi acusada de ter se beneficiado economicamente das fotografias.

No entanto, devemos entender o silêncio dos intelectuais de uma perspectiva mais ampla. É sabido o quanto a construção de um campo intelectual autônomo entre nós deu-se a duras penas. A liberdade de opinião decorre da posição independente que o francês Bastide ocupava naquele momento. Era professor da cadeira de sociologia na Universidade de São Paulo, instituição que lhe assegurava certa independência intectual. Diferente era a condição precária da maioria dos intelectuais nativos que se desdobravam em trabalhos no funcionalismo público, editoras, imprensa, cinema etc. Portanto, mais vulneráveis às pressões políticas e econômicas (MICELI, 2001).

O autor faz ainda um minucioso levantamento para chegar aos fatos ocorridos após a publicação das fotos. Movimentando-se por meio de informantes através da rede de sociabilidade do candomblé, entrevista pessoas chaves para interpretar a trajetória da mãe-de-santo. Neste percurso remonta a história das fotografias e o modo como elas foram recebidas pelos atores sociais nativos do camdomblé. Se, como vimos acima, asociedade é um campo de batalhas de representações (CLARK, 2004, p. 39), Tacca deixa claro para o leitor atento que os limites e coerências das representações são contestados e rompidos constantemente. Um fato ocorrido durante a pesquisa ilustra o modo como as imagens são apropriadas e ressignificadas pelos atores sociais.

... Jane trouxe-nos um álbum familiar. Uma sobrinha de Perrucha recortara todas as imagens de uma revista O Cruzeiro em que aparecia a tia e fez uma espécie de álbum de recordações, com o título ´Lembrança de minha Epilação, editada da Revista O Cruzeiro, de setembro de 1951`, descontextualizando dessa forma a reportagem e ressignificando as imagens no âmbito familiar. Surpreendentemente aparece no final do álbum seu reconhecimento religioso pela Federação Bahiana de Cultos Afro-Brasileiros, com sua ficha de inscrição e sua carteirinha de associada. A migração das imagens publicadas, recortadas e deslocadas para o âmbito familiar, introduzia uma aproximação memorialista com o evento religioso em si, como o próprio título do álbum sugeria, e sem colocá-lo à parte do contexto midiático, pois as imagens mantinham o padrão gráfico de uma publicação e o título fazia referência à revista. Portanto, nesse momento, a epilação de Perrucha aparecia como uma recordação familiar de um evento midiático, mas sem as referências sensacionalistas do título da reportagem (TACCA, 2009, p. 35-38).

A pesquisa desmistifica ainda o que se dizia a respeito da Mãe Riso: que teria recebido um castigo sobrenatural por permitir as fotos, que o seu terreiro havia sido “quebrado” e que fugira para o Rio de Janeiro onde teria sido assassinada, etc. Ao contrário, a trajetória de Mãe Riso foi das mais prolíficas no candomblé. Mudou-se para Nilópolis onde abriu um terreiro, auxiliou a abertura de outro em São Paulo e “... manteve laços fortes com o candomblé de sua origem e de seu território na área da Plataforma” (TACCA, 2009, p. 64). Teve mais de cem filhos-de-santo só no Rio e quando morreu, em 1° de janeiro de 1993, aos 73 anos, cerca de 600 pessoas, todas vestidas de branco, acompanharam o seu enterro.

O texto, escrito em primeira pessoa, tende a criar uma identidade entre o narrador e o leitor. Este descobre os acontecimentos que marcaram o embate midiático sobre a representação do candomblé, guiado por um narrador que não se furta em manifestar suas emoções ante as descobertas da pesquisa. A produção do saber não está apartada da afetividade, como qualquer pedagogo sabe. A busca por mãe Riso da Plataforma em Nilópolis é exemplar:

Chegando ao número de que dispunha, logo o identifiquei como sendo o terreiro de Riso: um lindo São Jorge em azulejo reinava icrustado na frente e no alto da casa. Neste momento senti uma grande emoção de estar ali defronte do terreiro de Riso, e ao mesmo tempo uma vontade muito grande de tê-la conhecido. De alguma forma, senti sua presença pela primeira vez, uma boa sensação (TACCA, 2009, p. 67).

Ao término do livro fica a sensação do percurso feito, dos nós reatados e do mistério solucionado. As lutas em torno da revelação dos segredos do candomblé sugerem o modo como uma parcela da população lida com as religiões que escapam ao controle social. Como na formulação de Arthur Miller, a bricolagem da sobrinha de Perrucha com as fotos da revista O Cruzeiro materializa uma singela e eficaz resposta política.
Neste sentido, vale acrescentar sua importância para o debate sobre a representação do negro. Nos últimos anos artistas, pesquisadores e ativistas têm levantado questões sobre o ônus representacional dos grupos excluídos, atentos às imagens produzidas pelos meios de comunicação de massa como revistas, cinema e televisão. O livro contribui ao chamar atenção para as ambigüidades em torno da representação e dos seus possíveis usos.

Referências bibliográficas
BAXANDALL, Michael. O olhar renascente – pintura e experiência social na Itália da renascença, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.
BECKER, Howard. Falando da sociedade – ensaios sobre as diferentes maneiras de representar o social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.
BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
CLARK, T.J. A pintura da vida moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
MICELI, Sérgio. Intelectuais à brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
MILLER, Arthur. Focus. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.
TACCA, Fernando Cury de. Imagens do sagrado: entre Paris Match e O Cruzeiro. Campinas, São Paulo: Editora da UNICAMP, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.
Revista PROA

Amazônia. Desenvolvimento, meio ambiente e diversidade cultural

A Amazônia em múltiplas faces

Eliana Tavares dos Reis

FERRETTI, Sérgio; RAMALHO, José Ricardo (Org.). Amazônia. Desenvolvimento, meio ambiente e diversidade cultural. São Luís: EDUFMA, 2009. 224 p.

A obra Amazônia. Desenvolvimento, meio ambiente e diversidade cultural é constituída de um conjunto de dez capítulos produzidos por pesquisadores de diferentes áreas de conhecimento das Ciências Sociais, vinculados à Universidade Federal do Maranhão e à Universidade Federal do Rio de Janeiro. A interlocução entre eles se deu nos marcos do convênio PROCAD/CAPES, e seus estudos foram reunidos e organizados pelo antropólogo Sérgio Figueiredo Ferreti e pelo sociólogo José Ricardo Ramalho, professores, respectivamente, das instituições de ensino mencionadas.

Para além do valor temático, tem-se, nessa coletânea, uma riqueza de focos de investigação e de abordagens teóricas e metodológicas que retratam a multiplicidade de possibilidades interpretativas de processos, atores e lógicas sociais, políticas, econômicas e culturais. Os trabalhos contribuem decisivamente para o desvendamento do modo como dinâmicas específicas (basicamente nos estados do Pará e do Maranhão) são definidas e definem ações e relações que conformam cadeias de interdependências muito mais amplas. Conjuga-se a isso a oportunidade de atentar-se para a série de discursos, negociações, agentes e concorrências que compõem tais cadeias e que são responsáveis pela edificação da Amazônia como referência de síntese para problemáticas políticas e para posicionamentos socialmente relevantes que colaboram para a sua existência objetiva.

Formas de legitimação de políticas públicas, estratégias empresariais, resistências identitárias, configurações de perfis e manifestações culturais são algumas das dimensões tratadas e que podem ser localizadas num continuum entre ideias de desenvolvimento e de preservação. Projetadas do local ao global, do passado ao futuro e mediadas por noções de impacto, riscos e efeitos, esses enfoques se traduzem nas controvérsias em torno de definições de meio ambiente, desenvolvimento sustentável, diversidade cultural e até mesmo de esquemas analíticos mais ou menos eficientes para a compreensão dos fenômenos sociais.

Observando-se a atualização de relações dicotômicas clássicas (lidas do ponto de vista científico e normativo) como as de tradição versus modernidade e a de mudança versus continuidade, propõe-se aqui atribuir essa regularidade para pontuar as singularidades dos diferentes capítulos do livro em pauta. Ou seja, indaga-se como essas dicotomias emergem nas discussões de cada autor, no intuito de explicitar não somente a importância de propostas desse tipo como parte integrante da consagração de problemas sociais, como também de formulação de questões relevantes para as ciências sociais.

O processo de instauração do Programa Grande Carajás (PGC) na Amazônia Oriental, com vistas à exploração de ferro gusa e carvão vegetal, é um dos cenários em que se situam os primeiros estudos presentes na obra. No quadro de referência, são sublinhados aspectos tais como as "apostas" do governo federal no PGC e a atuação da, então estatal, Companhia Vale do Rio Doce, responsável pela construção da Estrada de Ferro Carajás (EFC), que une a serra dos Carajás (Pará) ao porto do Itaqui, em São Luís (MA). A intervenção nessa área teria como fim a industrialização e a modernização do país e como justificativa a potencialidade em termos de recursos naturais de um espaço considerado como um "vazio demográfico" e, portanto, também adequado à expansão territorial.

Rodrigo Salles Pereira dos Santos discute as modificações nos "modelos e papéis institucionais" do Estado Nacional brasileiro, para afirmar justamente a persistência de uma "estratégia desenvolvimentista" nas "ações e representações da modernização induzida nos últimos 40 anos". O autor observa que o Estado demiurgo, que outrora se apresentava como o artífice direto das intervenções econômicas ("modelo centralista-autoritário" dos anos sessenta), passaria a desempenhar dois papéis complementares (com o "modelo descentralizado-democrático"): a gestão e sustentação de "infraestruturas públicas, de subsídios à atividade econômica e da incorporação de parte dos custos privados"; e a promoção das condições necessárias para a existência de "novos grupos econômicos, priorizando, sobretudo, a internacionalização, a orientação exportadora voltada à formação de superávits comerciais e à competitividade no setor mínerometalúrgico" (p. 85).

Pode-se pensar em como as transações econômicas globalizadas e as regulações pelo mercado, que visam ao comércio em escala internacional, facilitam o surgimento de empresas multinacionais com diferentes estratégias de mercado. Do mesmo modo, pode-se perguntar sobre os efeitos das iniciativas econômicas priorizadas e dos mecanismos de legitimação utilizados por agentes estatais e empresariais, tal como a criação de condições propícias de contestação em níveis igualmente globais.

Nessa linha, Marcelo Sampaio Carneiro, ao analisar dois mecanismos de certificação da atuação das empresas na Amazônia Oriental, revela processos mais abrangentes de ajuste aos parâmetros de conduta econômica e social exigidos internacionalmente. Esses diferentes "dispositivos de julgamento [são] destinados a construir a legitimidade das empresas submetidas à contestação da crítica social" (p. 20), e, portanto, ocupam um lugar central na apreciação e no controle dos "impactos sociais e ambientais derivados da implantação da atividade carvoeira e siderúrgica" (p. 34). Composta por porta-vozes localizados nos mais diferentes domínios sociais (midiáticos, organizações não-governamentais, instâncias governamentais, etc.) e geográficos (regionais, nacionais e internacionais) e com as mais variadas causas (ambientais, econômicas, políticas e sociais), a definição dessa categoria é tributária das condições conjunturais e das "possibilidades de mobilização argumentativa" (p. 34). Tal perspectiva converge com a vinculação da certificação com "práticas modernas de exploração florestal e de relação capital-trabalho" (p. 21) e de "dignificação, formalização e modernização do trabalho na cadeia produtiva do setor siderúrgico" (p. 31), logo, como possibilidade de transposição de uma ordem anterior ou "tradicional".

É nesse mesmo complexo que as comunidades são impactadas por projetos como o PGC e por modalidades de atuação utilizadas pelas empresas segundo os diversificados interesses em jogo. Horácio Antunes de Sant'Ana Júnior e Maria José da Silva Aquino lembram que as transformações das representações sobre o "meio ambiente", a "causa ecológica" e sua institucionalização - processada desde o final da década de 1960 - ajudaram na percepção da Amazônia "como reserva de biodiversidade e laboratório de políticas ambientais", o que incidiu na "criação de órgãos ambientais e na implementação de políticas de proteção e conservação do meio ambiente pelo governo brasileiro" (p. 65). Esse é o caso das Unidades de Conservação (UCs) fixadas no Sudeste do Pará (Província Mineral Carajás), que refletem a convergência dos interesses da mineradora Vale e do Instituo Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - integrante do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) - na preservação da floresta de "canga" (condição para a exploração de ferro). O mesmo não teria ocorrido com a formalização da reserva extrativista (RESEX) do Taim, em São Luís (MA), na qual a empresa, sem proveitos relacionados aos mangues, obstaculiza o "controle do uso de um território" almejado pelos órgãos ambientais e pelas "populações tradicionais" (p. 67).

Da mesma maneira, as comunidades indígenas seriam afetadas pelas investidas de atores governamentais, não-governamentais, empresariais, missionários, entre outros. Nesse sentido, o estudo de Elizabeth Coelho, Gustavo Politis, Almudena Hernando e Alfredo Ruibal, sobre as transformações do modo de vida dos Awá-Guajá (autodenominação e classificação externa, respectivamente), é particularmente primoroso, pois mostra como as múltiplas dimensões da organização social e as formas de existência e de percepção dos nativos são abaladas. Destaca-se o papel da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), numa espécie de "colonização" dos Awá, em consonância com a imposição do PGC. Outrora nômades, circulando por extensões de matas pertencentes aos estados do Pará e Maranhão, o "novo modus vivendi" é marcado pelo sedentarismo, pela prática da agricultura e pela educação escolar. Os riscos e dificuldades de circulação (muito por conta da EFC) conduzem a readaptações nas suas formas de relacionamento com as moradias, os matrimônios, a caça, etc. Novos recursos exógenos passam a ser valorizados, tais como o domínio do português, redes e roupas industrializadas e uso de materiais sintéticos para adornos.

Benedito Souza Filho também questiona o abalo de empreendimentos externos nas identificações étnicas e territorialmente definidas, porém realça o sentido de resistência e de reinvenção das lutas de uma "população". Seu capítulo é dedicado ao exame do confronto entre "remanescentes de quilombo de Alcântara, no Maranhão, e setores do Estado em decorrência da implantação de uma base espacial" (p. 119-120) na década de 1980. Uma das principais opções analíticas do autor é "estabelecer um paralelismo" entre conflitos anteriores e o conflito atual, tomando como eixo as noções de quilombo, quilombola e de guerra. Indicando as mudanças nas ações do Estado contra os quilombolas, Souza Filho reforça a continuidade de uma luta cuja legitimidade é redefinida. Auxilia na reconfiguração dos seus parâmetros e sentidos a entrada em cena de porta-vozes e especialistas (antropólogos, arqueólogos, operadores do direito e historiadores) engajados na objetivação dessas "populações", garantindo sua "visibilidade cultural" e seus direitos face à ação "expropriadora" do Estado. Para ele, o "reconhecimento de grupos em diferentes partes do país como remanescentes de quilombos confirmou a importância e o papel dos intelectuais nesse processo" (p. 132).

As discussões em torno das invariabilidades e das modificações sofridas por "povos", "identidades", "manifestações culturais" e "rituais" - resultantes das mudanças nas condições históricas, sociais, políticas e econômicas mais gerais - são notadamente tratadas nos trabalhos antropológicos. Com essa perspectiva, encontra-se, na coletânea, um dos estudos produzidos por Sérgio Figueiredo Ferretti sobre as "festas religiosas populares". O autor retoma análises clássicas e contemporâneas das ciências sociais sobre festas e religião para fundamentar a investigação das "festas nos terreiros de culto afro-maranhenses", singularizadas pela combinação de dimensões do sagrado e do profano, conjugadas na oposição e complementaridade entre a "brincadeira" e a "obrigação" que as definem. Centrando-se mais detidamente no universo do "tambor de mina", ao qual tem dedicado muitos anos de pesquisa, Ferretti sublinha que ele pode ser entendido "como um dos elementos importantes de preservação de festas e tradições folclóricas ou da cultura popular" (p. 194).

As condições para o desenvolvimento de pesquisas que retratam a persistência, transmissão e valorização de manifestações dessa espécie, no âmbito das ciências sociais, foram criadas por transformações significativas nos estudo de "folclore" e de "cultura popular". Quer dizer, como demonstrou Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, elas se inserem numa dinâmica que beneficia o estabelecimento da pertinência dessas temáticas para o conhecimento antropológico e sociológico, assim como o reconhecimento de seus porta-vozes: os intelectuais e os pesquisadores. No Maranhão, a atuação e as pesquisas de Sérgio Ferreti ocupam uma posição de destaque na consolidação de estudos desse tipo. A autora analisa as inserções de intelectuais e pesquisadores em instâncias governamentais, os vínculos regionais e nacionais que estabeleceram entre si, a produção de políticas públicas de cultura e a relação desses fatores com a institucionalização das ciências sociais no estado. Para tanto, lança mão da apresentação de trajetórias exemplares de agentes responsáveis pela afirmação de espaços, de concepções, de temáticas e de prioridades políticas que alicerçaram o lugar conquistado pelos estudos de folclore e sua legitimidade acadêmica e científica.

Tal recurso analítico é igualmente adotado por Igor Gastal Grill, que visa a investigar os processos de diversificação e especialização das elites políticas do Maranhão e do Rio Grande do Sul. O autor analisa especialmente os investimentos profissionais e as "estratégias de reconversão de bases sociais em bases políticas, bem como [os] mecanismos e [os] princípios acionados com vistas à legitimação de formas de fazer e de conceber a política" (p. 137), ativados por deputados federais provenientes de famílias de imigrantes, notadamente italianas, alemães, sírias e libanesas. O cotejamento das duas configurações regionais permitiu delinear os confrontos entre estabelecidos e outsiders da política nos dois estados. É mediante a consideração das "tensões, disputas, interdependências, osmoses e interpenetrações", pesquisadas numa "perspectiva diacrônica, processual e comparativa" (p. 138), que o autor encontrou o terreno de produção e afirmação de posições, arenas e papéis políticos desempenhados por agentes com perfis e trunfos originais na disputa por cargos eletivos. Quer dizer, evidenciou a redefinição dos critérios de entrada e dos princípios de hierarquização do exercício da atividade política "via estratégias de reconversão" (p.158).

Pesquisas sobre configurações de relações políticas foram consagradas no âmbito das ciências sociais brasileiras, como é caso daquelas desenvolvidas por Maria Isaura Pereira de Queiroz e Maria Sylvia de Carvalho Franco. Elevando as contribuições dessas autoras para o pensamento político e social brasileiro, André Botelho empenhou-se na sistematização de elementos que as aproximam e daqueles que as distanciam no que tange às opções analíticas assumidas. Merece relevo, na ótica do autor, a problematização teórica e empírica do tratamento diferenciado e próprio que ambas oferecem à articulação entre "ação" e "estrutura" para a discussão e caracterização da "dominação política" gerada na "formação rural da sociedade brasileira". Desse modo, nos termos colocados por Botelho, "elas conseguem divisar tanto aspectos persistentes na organização e reprodução social como a própria capacidade manifesta por indivíduos e grupos sociais de agirem e, desse modo, responderem criativamente ao contexto de estruturas em que se inserem" (p. 178).

Dentre os aspectos grifados por Botelho, dois podem ser desafiadores para a reflexão sobre o conjunto dos trabalhos presentes no livro ora resenhado. Em primeiro lugar, a relevância de se ponderar sobre a existência de relações de conflito e de violência no seio dos grupos sociais geralmente apresentados como unidades relativamente harmônicas, com objetivos e perspectivas relativamente comuns em relação aos "inimigos" apresentados com igual homogeneidade. E, em segundo lugar, a necessidade de se enfrentarem, com uma visão processual, as relações sempre conflituosas e contraditórias entre tradicional e moderno, continuidade e mudança, desenvolvimento e preservação.

Eliana Tavares dos Reis - Professora Adjunta da Universidade Federal do Maranhão. Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com estágios de doutoramento em Paris (École des Hautes Études en Sciences Sociales e Paris I - Panthéon de la Sorbonne). Autora de artigos em revistas como Revista Pós-Ciências Sociais (UFMA), Ciências Humanas em Revista (UFMA), Cadernos Ceru (USP), Tomo (UFS), História Social (Unicamp), Revista de História (UFES), Sociologias (UFRGS) e Cadernos de Ciência Política (UFRGS). Co-organizou a coletânea "Estudos de Grupos Dirigentes no RS: algumas contribuições recentes (2008). eliana1reis@terra.com.br

Cadernos CRH

ÉTICA - direito, moral e religião no mundo moderno


"Coração oposto ao mundo"

Rubens Ricupero


NO VERSO de Fernando Pessoa que forneceu o título a esta resenha, o mundo figura como antípoda do homem interior e de sua verdade. Aliás, o verso seguinte é: "Como a família é verdade!". Não se trata do mundo da natureza, da biosfera, da matéria, que Teilhard de Chardin amava apaixonadamente na sua evolução ascendente rumo ao ponto Omega.

É mais bem o mundo das opressões econômicas e políticas, das hegemonias ideológicas como as impostas por regimes de espoliação capitalista negadores da dignidade humana. O sentido do verso se avizinha ao da frase evangélica várias vezes citada no livro: "De que vale ao homem conquistar o mundo inteiro se vier a perder sua alma?".

Em outras palavras, esta é a obra de coração e inteligência opostos a esse mundo que nos domina e dita por toda parte as regras de conduta e as modas intelectuais. Por essa oposição mesma, é obra nitidamente contra a corrente, na forma e no fundo.

Na forma porque, sob o jugo das atuais convenções acadêmicas, ninguém se aventuraria a empreitada de tamanha envergadura. O paradigma em vigor é o da especialização monográfica, que trata, cada vez com mais precisão, de coisas cada vez mais irrelevantes. Para os submissos ao academicamente correto, é audácia de tirar o fôlego intentar uma verdadeira suma de todo o conhecimento e reflexão humanos sobre direito, moral e religião que se vieram acumulando durante mais de 25 séculos.

Logo na Introdução, se baliza o escopo com que se falará de ética: o conjunto dos sistemas de dever-ser, das esferas de regulação do comportamento humano – religião, moral e direito – outrora unidos e harmônicos, hoje separados e, com freqüência, antagônicos. Cada uma dessas esferas tomada não de modo isolado, individual, estático, mas no movimento de suas interações com as duas outras. A metodologia escolhida é sistêmica: a visão integradora, completa, do todo "apreendido pelo pensamento, conjuntamente, em sua estrutura holística e em sua realidade funcional" (p.20).

Essa abordagem sistêmica se complementa com outro método igualmente compreensivo e dinâmico, o da História como "processo global, que abrange necessariamente, no espaço limitado da biosfera, uma crescente intercomunicação de todos os povos da Terra" (p.37). Tal como no enfoque do sistema, busca-se também a apreensão da totalidade, no caso, a histórica. Não a de seus componentes isolados – história política, econômica, social, cultural, de país ou região –, mas a que lança o olhar para abraçar o conjunto das civilizações e de suas recíprocas influências.

A aplicação do método sistêmico-histórico se desdobra ao longo das três partes que constituem a estrutura interna da narrativa. A primeira ocupa-se da fundamental e inseparável unidade de religião, moral e direito no mundo antigo e de sua transformação por obra da filosofia e das religiões monoteístas. A segunda é um vasto panorama da evolução do pensamento e da vida universais que vai de Maquiavel ao Estado totalitário, da Reforma protestante à ação do Mahatma Gandhi.

Uma das felizes inovações da redação é a inclusão, nessas duas partes, ao lado da história intelectual do pensamento ético, da apresentação exemplar, no sentido literal da palavra, de modelos de vida, tais como os de São Francisco de Assis e Gandhi. Como a matéria do livro é o comportamento humano, não bastam conceitos, teorias abstratas, regras de conduta desencarnadas da realidade. Da mesma forma que na frase de Jesus – "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" –, a verdade e o caminho devem às vezes assumir a carne de pessoas históricas, os olhos e o rosto de seres humanos.

A inovação não é arbitrária e tem tudo a ver com a perspectiva fortemente personalista – nem coletivista nem individualista – que conduz toda a exposição. O que conta não é o egoísmo do indivíduo ou o anonimato da massa indistinta, mas a pessoa, na sua variedade infinita, na sua maravilhosa natureza única, inconfundível, insubstituível.

As duas primeiras partes preparam o terreno para a culminação – A Ética de um Mundo Solidário – onde se desvenda o propósito último da obra: "esforço", acrescentaríamos pessoal e original, "de construção das bases teóricas e institucionais de instauração de uma nova ética para a humanidade, agora que ela se transforma em sujeito unitário da História" (p.46).

Se já é insólito, no cenário intelectual contemporâneo, arriscar uma suma de tudo o que de relevante se propôs a respeito do comportamento das pessoas, o que dizer do desejo de delinear "um programa de reconstrução ética do mundo", como se indica na página 407? E, no entanto, não seria natural exigir algo do gênero de quem passou em revista as etapas não do conhecimento físico, químico ou matemático, mas dessa matéria viva e palpitante que são as ações de nossos semelhantes? De que serviria visitar o cemitério de ilustres doutrinas defuntas se ficasse faltando a indicação do caminho da saída e da volta ao mundo em que efetivamente vivemos?

A mesma decidida intenção de ir contra a corrente reaparece no fundo da obra, a começar da escolha das ênfases, das presenças ou ausências de determinados aspectos das discussões contemporâneas. Nos dias que correm, o debate ocidental sobre a ética é largamente, quase exclusivamente, concentrado em temas relativo à moral dos indivíduos ou da família. A controvérsia sobre a manipulação genética entre os principais filósofos alemães, a discussão nos parlamentos e na imprensa sobre a pesquisa científica com embriões ou sobre a morte assistida nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, Suíça, Itália, as divisões sobre o casamento de homossexuais, um pouco por toda a parte, substituíram quase por completo a paixão de um passado recente pelas grandes questões da justiça e da igualdade.

Não é apenas na vida política norte-americana que a agenda pública vem sendo invadida pela interface da legislação com a moral individual. Na Espanha atual, por exemplo, o que vem dando identidade própria aos social-democratas de volta ao poder não é mais a diferença em política econômica ou social, mas as mudanças da legislação sobre uniões do mesmo sexo e aborto.

Encontra-se em plena afirmação tendência bem captada na análise: a da marginalização dos assuntos de importância crucial sobre a organização política e econômica da sociedade, evitados por partidos e sindicatos desnorteados pelo fim do socialismo. O vácuo assim criado é imediatamente ocupado pelas preocupações de moral sexual ou comportamento individual como as drogas, merecedoras de séria consideração, mas não, como agora sucede, quase a ponto de monopolizar a agenda pública.

Esse panorama do debate ético nos países mais desenvolvidos é completado pela crescente valorização da luta contra a corrupção governamental, não exclusiva, mas majoritariamente, nas nações em desenvolvimento. O movimento é, em parte, impulsionado por organizações internacionais como a ONU, o Banco Mundial, a OCDE, entidade representativa das economias ricas e, nessa qualidade, a coordenadora dos países doadores de ajuda ao desenvolvimento. É interessante observar, nesse sentido, que, com poucos anos de intervalo, a ONU promoveu recentemente a negociação e a assinatura de duas grandes convenções, uma contra a corrupção pública, outra contra o crime organizado, formas patológicas enormemente impulsionadas pela globalização e freqüentemente vinculadas.

Coadjuvando as instituições multilaterais, criaram-se inúmeras ONG, das quais a mais conhecida é a Transparency International, a fim de estudar e combater a corrupção governamental, muitas vezes a partir da perspectiva das câmaras de comércio ou de círculos de negócios.

De modo explícito ou implícito, temas como esses não deixam de estar presentes no livro, como no capítulo sobre as "questões éticas ligadas ao início e ao fim da personalidade individual" (p.475-8), em que os dilemas cruciais recebem tratamento convincente e conciso. Dito isso, não há como negar que a obra se preocupa acertadamente com os problemas éticos de essencialidade indiscutível para a humanidade, de uma perspectiva que se poderia chamar de macro, em contraposição à visão mais individualista que prevalece hoje em dia.

Um dos achados de Fábio Konder Comparato foi o de não se deixar paralisar pelo impasse da discussão acerca da dificuldade de propor alternativas concretas de organização econômica em relação aos modelos da globalização capitalista. Recusando o combate desigual no terreno do adversário, ele transpõe o problema para o terreno da moral e da justiça em que os regimes dominantes têm todas as penas do mundo para tentar se defender. E, nesse terreno, ele encontra uma das possíveis chaves para o impasse: a edificação de sistema integrado e universal de direitos e instituições mais justos e razoáveis do que a atual "desordem estabelecida".

Num indispensável e bem-vindo esforço de reequilibragem em relação à exagerada concentração nos aspectos de moral individual e corrupção governamental, o autor efetua, na agenda do debate sobre ética, uma "revolução copernicana" às avessas. Regressa aos fundamentos primários e originais da reflexão ética, voltando ao ponto de partida socrático, inserido como frase de abertura da Introdução: "Esta investigação diz respeito ao que há de mais importante: viver para o bem, ou viver para o mal".

Não se poderia dizer melhor: a ética ensina a viver para o bem e assim alcançar a plena felicidade, nada mais, nada menos. As quase 700 páginas que se seguem são todas dedicadas a demonstrar, passo a passo, como avançar no caminho dos princípios éticos vitais – verdade, justiça e amor –, passando pelos princípios complementares: liberdade, igualdade, segurança e solidariedade. A pedra fundamental do edifício é a dignidade da pessoa humana.

Seu desdobramento lógico é a política, a qual, talvez para espanto do leitor brasileiro desacostumado dessa velha verdade, é qualificada de "suprema dimensão da vida ética". O objetivo aqui é "demonstrar que o ser humano só realiza integralmente as suas potencialidades [...] quando vive numa sociedade cuja organização política não se separa das exigências éticas e regula, de modo harmonioso, todas dimensões da vida social" (p.583). Tanto no plano interno de cada unidade soberana quanto na esfera da edificação da sociedade internacional com abrangência universal, a república e a democracia constituem as formas dessa organização política ideal.

Ela somente há de se concretizar no momento em que for possível, mediante a reforma democrática radical e em profundidade da ONU, integrar e amalgamar dentro de um conjunto harmonioso todas as organizações da "sociedade comum do gênero humano".

Esse seria o coroamento desejável do milenar processo de unificação da humanidade, da crescente convergência entre as tendências rumo a níveis cada vez mais elevados de consciência e de complexidade. Para chegar a tal ponto, contudo, será antes preciso não se enganar na escolha das duas correntes históricas profundas que hoje se cortam em "grande encruzilhada": a que se apóia na força militar, na dominação tecnológica e na concentração de poder econômico; ou a que se funda na dignidade da pessoa e na "progressiva formação do conjunto dos direitos humanos como um sistema" (p.699), reforçando-se a conexão entre direitos individuais e direitos sociais, entre direitos dos povos e direitos da humanidade.

O autor dá-se perfeitamente conta de que essas duas correntes diferem em natureza, instrumentos de ação, meios econômicos e militares, domínio do sistema de comunicação e poder em geral. Sabe que algumas de suas propostas se confrontarão com o ceticismo ou a franca zombaria dos poderosos; que não faltarão os argumentos de que a correlação de forças é, como sempre, desfavorável aos pobres e vulneráveis. Pergunta-se se há que abandonar a luta e esperar que algum incerto determinismo histórico nos traga a salvação.

Sua resposta é firme e sem ambigüidade: é preciso insistir e lembrar que a simples proposta de esquema institucional mais justo põe a nu a ilegitimidade do sistema atual: "Quando a consciência da ilegitimidade de um sistema de poder político ou econômico torna-se majoritária no plano nacional ou no internacional, esse sistema já está com os seus dias contados" (p.681).

O que fica da leitura é a invariável sensação de elevação, dignidade e nobreza que respira através de um texto límpido e elegante, denso mas despido de obscuridades ou hermetismo. A claridade, "cortesia do filósofo", torna abordáveis até pensamentos espinhosos como o de Hegel. A concentração exigida pela reflexão filosófica é, quase sempre, amenizada pela inspirada inserção de poemas, diálogos, falas de tragédias gregas, que revelam de imediato pela intuição poética o que o conceito tem dificuldade em mostrar.

As três partes em que se divide a exposição possuem, cada uma, inteira coerência própria e se prestariam, a rigor, a serem lidas e estudadas como se fossem três livros autônomos. Elas ganham, todavia, se acompanhadas, sentença a sentença, na seqüência de articulação com que foram tecidas como pano sem costura nem remendo.

Não hesito em dizer que se tem às vezes a impressão de estar lendo um clássico. Não só porque boa parte do conteúdo nos traz de volta as vozes inesquecíveis de Sócrates, Platão, Aristóteles, Tucídides, Sófocles, Eurípides, Cícero, Políbio, Plutarco, os grandes profetas de Israel com Isaías à frente, Tomás de Aquino, Montaigne, Erasmo, Lutero, Calvino, Rousseau, Kant, até os modernos. Aliás, uma das forças da obra é o que ela desvenda da incomensurável e iluminadora riqueza da cultura clássica e contemporânea, filosófica, histórica, jurídica, universal de um estudioso que leu, compreendeu e assimilou tudo o que vale a pena na tradição herdada dos gigantes que nos precederam.

E não apenas na nossa tradição judaico-grega e cristã ou eurocêntrica, mas também nos mestres chineses e islâmicos, num respeito e interesse sinceros por culturas diferentes mas em muitos pontos convergentes com a nossa.

Mais até que a substância recheada com as questões pela primeira vez suscitadas pelos filósofos gregos, o que dá à obra a respiração de um clássico é ter sido escrita como os grandes livros. Quero dizer com isso duas coisas: primeiro, que vai ao coração da problemática humana; segundo, que não se destina ao especialista, ao professor de Filosofia ou de Ética, mas ao comum dos mortais preocupado com os temas essenciais, a pessoas como você ou eu, leitores dispostos a investir algum tempo em reflexão séria sobre o destino humano.

É por isso que este escrito não passa da apresentação e convite à leitura feito por alguém que carece de qualquer competência técnica ou especializada em ética, direito ou religião para poder fazer uma apreciação crítica. Nem seria essa tarefa adequada para quem partilha como eu da visão de vida e convicções do autor.

No máximo, se houvesse espaço, seria pertinente explorar algumas das ameaças à unificação num sistema universal e integral de direitos humanos. Em especial, o oriundo da violenta rejeição pelo fundamentalismo islâmico do próprio conceito geralmente aceito de direitos humanos, como se tratasse de imposição de cultura estrangeira.

Ou o fenômeno recente da radical integração da China, da Índia, dos asiáticos em geral, ao movimento de unificação planetária. O problema é que tal tendência, que completa a universalização desse movimento, não procede da adesão aos ideais republicano, democrático, dos direitos humanos. Ela deriva, como se sabe, da poderosa atração exercida pela promessa de prosperidade e consumismo trazidos por um capitalismo global não mais imposto de fora para dentro, mas livremente abraçado e praticado com competência superior talvez à dos seus inventores originais. Nem por isso, infelizmente, menos desumanizador ou espoliativo.

Mas essa discussão extrapolaria largamente do escopo do livro e caberia melhor como ilustração da aplicação de suas análises e perspectivas, sobretudo da luminosa mensagem de fé e esperança que elas transmitem.

Não é possível, entretanto, falar da mensagem sem dizer algo do seu autor. Nessa matéria, conforme se mencionou no comentário sobre a inclusão de modelos de vida exemplares, não é indiferente que seja um santo ou um sofista aquele que nos dirige a palavra, como seria no caso de um compêndio de matemática ou mesmo de um romance. Tratando-se de moral e ética, o mínimo que se espera do pregador é que ele pratique o que aos outros prega.

Desse ponto de vista, raros como Fábio Konder Comparato são os que podem ostentar tantas e tão impecáveis credenciais. Sei do que estou falando, pois conto-me entre seus amigos há mais de meio século, desde que iniciamos juntos o curso de direito na Faculdade do Largo de São Francisco. Costumava passar às vezes parte das tardes na casa de seu pai, "seu" Antoninho, na Rua Arthur Prado, ao lado da antiga residência do cardeal Motta. Lá almocei ou jantei, deliciando-me com a inteligência irônica de dona Sulamita Konder, sua mãe, em companhia da velha avó siciliana, dona Júlia, dos irmãos José Marcos e Alice. Foi naquela casa que ouvi, pela primeira vez, os prelúdios de Debussy dedilhados por Fábio ao piano. Lembro-me, em particular, de Jardin sous la pluie, de La cathédrale engloutie.

Tudo isso voltou-me agora à memória com extraordinária nitidez, ao reencontrar nessas páginas os ecos amadurecidos das intermináveis conversas de recém-saídos da adolescência, interrogando o sentido da vida, ansiosos por apreender, ler, ouvir e ver tudo o que nos reservava o mundo em conhecimento da verdade, do belo, do bom e nobre. Já então naqueles dias longínquos, Fábio se interessava em ir além do capitalismo, em discernir os traços do que poderia ser a empresa, não como mera propriedade do dono do capital, mas como comunidade de propriedade e gestão com os trabalhadores.

Nas Arcadas, foi ele a inspiração e a alma da Conferência Vicentina de São Basílio Magno, que se reunia à noite numa das dependências do velho Convento de São Francisco, sob a direção espiritual complacente e repassada de bonomia de frei Calisto Fruet, digno herdeiro da simplicidade franciscana. Tentávamos socorrer os pobres, de seguir o exemplo intelectual e de ação de Frederico Ozanam, nosso fundador, de traduzir o Evangelho na vida diária de estudantes de direito cheios de incerteza e insegurança sobre o futuro.

Desde o começo, ficou claro que Fábio era a maior vocação jurídica da que veio a ser conhecida como a Turma Clóvis Bevilaqua, da Faculdade de Direito. A cultura humanística, a erudição universal demonstradas neste livro, a intuição profunda do fenômeno jurídico sempre estiveram nele enriquecidas pela integridade e retidão de caráter sem falhas, a generosidade, o altruísmo, a capacidade de se doar aos que sofrem e a lutar sem medo pelos perseguidos.

Após seu brilhante doutorado na Universidade de Paris, do consagrador concurso de professor da Faculdade, ele se tornou em pouco tempo uma das mais respeitadas e procuradas autoridades em direito de empresa, consultor valorizado do que existe de mais importante nos meios empresariais do país. Não havia limites para o que ele poderia ter acumulado em riqueza, prestígio, honrarias públicas e privadas. Em vez disso, preferiu em certo momento fechar o escritório, abandonar a advocacia e o direito empresarial e devotar-se de corpo e alma aos direitos humanos, que passou a ensinar graças aos colegas que o acolheram em outro departamento da Faculdade.

Mas não se limitou a ensinar ou escrever; durante o regime militar, atuou com desassombro na Comissão Justiça e Paz da diocese de São Paulo, defendeu torturados e perseguidos, esteve presente a cada ato ou manifestação de resistência. Findo o regime, recusou, por princípio e consciência, a nomeação para a Comissão incumbida de preparar anteprojeto de Constituição. Fundou a Escola de Governo, hoje espalhada pelos quatro cantos do país, a fim de levar à prática o que ensina sobre a política como dimensão suprema da vida ética, para a qual é necessário formar vocações. Quantos como ele estariam dispostos a dedicar, anos a fio, várias noites da semana, à atividade desinteressada e exigente de educar talentos políticos?

É por esses motivos e outros que eu seria capaz de desfiar, por várias páginas, que este não é um livro como os outros. Ele pertence, na verdade, àquela raríssima categoria dos livros escritos com a própria vida, uma existência coerente e exemplar dedicada à afirmação dos direitos humanos, uma vida ética, para o bem e a virtude, segundo os ensinamentos gregos. É, nesse sentido, o que no italiano de nossos comuns ancestrais se chamaria de "l'opera della vita", a obra da vida e para a vida, escrita com a sabedoria de um coração oposto ao mundo e aberto à verdade. A ele se pode aplicar, sem exagero, o que Bertrand Russell escreveu, na abertura de sua autobiografia, sobre as forças que lhe moldaram a vida: "a paixão pelo conhecimento, a busca de amor, uma compaixão quase insuportável pelo sofrimento humano".

Genebra, 31 de agosto de 2006.


Rubens Ricupero é diretor da Faculdade de Economia da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado). Foi secretário-geral da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento). @ – rricupero@faap.br

Interpretação do Direito e Movimentos Sociais

Celso Fernandes Campilongo, Ed. Elsevier

Ao contrário do que o título pode levar a crer – e o que enseja a leitura obrigatória a todos os estudiosos das ciências sociais –, a obra afasta-se da corrente produção dogmático-jurídica e de uma análise de hermenêutica jurídica. O que se pretende é explorar a conexão entre o tratamento sociológico dos movimentos sociais e o tema da interpretação jurídica da perspectiva da teoria dos sistemas de Niklas Luhmann, base teórica utilizada no trabalho.

A fim de delimitar a noção de movimentos sociais na vasta literatura sociológica, o autor realiza um mapeamento temático, agrupando os estudos em quatro principais correntes (teoria da ação coletiva; da mobilização de recursos; estudos sobre os novos movimentos sociais; e novas orientações). Contudo, o diagnóstico principal sobre o qual recai toda a originalidade da obra é que poucas dessas teorias examinam os movimentos sociais à luz das relações que possam ter com o sistema jurídico.

Segundo o autor, a literatura sociológica vê esse sistema como obstáculo ou não o vê como área privilegiada da mobilização social. Por outro lado, a literatura de cunho jurídico sobre os movimentos sociais tende a destacar temas como o acesso ao Judiciário, o papel político do juiz etc. Romper com esse “paradigma” foi o desafio bem-sucedido de sua tese, ao demonstrar que os movimentos sociais se instalam no sistema jurídico como reação à sociedade diferenciada funcionalmente, e o sistema jurídico pode reagir aos conflitos dos quais os movimentos sociais são portadores, reordenando suas expectativas em relação ao direito.

A obra vale-se do fértil cenário proporcionado pelo início da segunda década do século XXI, marcado por intensos protestos, para fincar em terreno sólido sua contribuição. Formulada como tese para o concurso de titularidade em Filosofia e Teoria Geral do Direito na USP, o resultado não haveria de ser outro: sua aprovação, com louvor, e a apresentação de um frutífero campo para estudos interdisciplinares.

Priscilla Soares de Oliveira
Bacharel em Direito pela PUC-SP e graduanda em Ciências Sociais na USP. Assistente da disciplina Ciência Política e Teoria Geral do Estado na Faculdade de Direito da PUC-SP.

A década de 1920 e as origens do Brasil moderno


A grande transição

Carlos Guilherme Mota

Nos últimos 30 anos, a palavra "transição" tem sido usada entre nós com liberalidade espantosa. Tanto que se correu o risco de esvaziar o conceito de sua densidade histórica. Primeiro, foram os debates reiterativos sobre a transição do feudalismo ao capitalismo; depois, foi a vez de cientistas políticos que, após tanto debaterem transições, chegaram afinal a Brasília graças à coligação previsível.

O fato é que grandes transições -como as revoluções- não ocorrem todos os dias. Na história do Brasil, foram poucas, a começar pela primeira, a da própria formação à época da Independência (1808-1840), quando no Brasil se construiu sua identidade enquanto nação. Outra transição, bastante conhecida e estudada, cobre a época da Abolição. E a terceira -sinal dos tempos, visível dada a atenção que a historiografia vem lhe consagrando- é a de que trata esta excelente coletânea, "A Década de 1920 e as Origens do Brasil Moderno".

O livro merece atenção no atual panorama historiográfico, marcado por modismos e orientação mercadológica discutível. Porque esses estudos possuem, entre vários méritos assinaláveis, o de ajudar a deslocar a ênfase das discussões sobre a primeira grande transição do século 20 no Brasil dos anos 30 para os anos 20, colocando em novas bases as reflexões e as pesquisas sobre a construção do que as organizadoras denominam de "modernidade brasileira". Já se conhecem estudos "antecipatórios" sobre esse período-chave; o mérito porém deste painel é oferecer uma visão de conjunto sobre aquele momento com razoável grau de coerência, respondendo à problemática levantada na introdução. O leitor pode concluir, após a leitura, que de fato as grandes transformações das décadas seguintes já estavam em curso nos anos 20.

O mérito principal dessa coletânea deriva, a meu ver, da própria maneira como foi concebida. Não se trata de um conjunto ziguezagueante de artigos, com a preocupação em alinhar-se com o "dernier cri" historiográfico, fenômeno que marca o pouco sóbrio tempo atual. Procurou-se antes localizar um campo específico da história -o da história econômica- para, a partir dele, tentar-se uma abordagem deveras interdisciplinar. Ou melhor, transdisciplinar.

Os autores parecem estar cientes de que muito se fala entre nós em produção interdisciplinar, porém raramente se definem os campos, os termos e os componentes, os métodos e as técnicas do trabalho. Resultado de um simpósio em que se buscaram todas as dimensões das "origens da modernidade brasileira", os pesquisadores percorreram a crise da República em busca de formas de renovação política, examinaram as vertentes do pensamento político em movimento, as frentes e conceitos de urbanização, de inovação tecnológica e também o perfil dos sistemas educacional e cultural. Note-se que, embora com foco em São Paulo, os estudos como que dialetizam a antiga questão nacional, tema clássico e permanente da nossa historiografia, procurando sempre o contexto maior em que ocorreram, como se verifica nos estudos de Lucia Lippi, João Quartim, Rui Granziera ou Wilson Cano. E são inovadores os estudos de Milton Lahuerta (que se inspira no pensamento de Sérgio Milliet, novo ponto de partida para se repensar hoje os anos 20) e de Marta Carvalho, sobre educação, política e o desencantamento com a República Velha.

O artigo de Nestor Goulart Reis -que vem produzindo revisões deveras críticas, inclusive no que tange às ideologizadas "raízes do Brasil"- revela novas dimensões e usos do conceito de "modernização conservadora". Nestor abre perspectivas para melhor compreensão de como os mesmos temas eram tratados simultaneamente pelos tradicionalistas e modernistas. O projeto político de Washington Luís, nota ele, envolvia uma perspectiva para o futuro, como também uma determinada posição em relação ao passado. Com efeito, a propaganda política oficial utilizava um "esquema de valorização do que na época passou a se caracterizar como bandeirismo".

Ao se estabelecer uma ligação entre um passado mítico e de energia ("Seja um bandeirante"), ação política e grande mobilidade pelo espaço nacional, desenhava-se o objetivo e o papel que a São Paulo deveria caber na construção da nação. Uma vez definido o projeto e sua estratégia, "esta foi elaborada culturalmente, para sua legitimação, o que implica uma definição prévia de um destino ou futuro". A nação se forja assim: "Os projetos de equipamento do território vão ser elaborados culturalmente, como uma forma de ideologia". Isso explica porque os museus, os tombamentos do que se considerava "patrimônio nacional" etc. serão decorrências e parte dessa estratégia em que se escondia nossa ínvia "modernidade". Um estudo que nos obriga hoje a pensar: individual ou institucionalmente, quem legitima o quê?

Estes estudos não desconhecem, antes valorizam adequadamente, o fundo onde tais fenômenos se ancoram, no campo da história econômica. Circunscrevem o auge e a crise da economia primário-exportadora, a formação de um novo mercado de trabalho, a industrialização e a urbanização com seus novos desafios e tecnologias, os impasses da política econômica etc. Mas têm a sensibilidade para buscar a historicidade desses fenômenos, e não o fazem tão somente considerando a presença de novos atores políticos, da classe operária, das classes médias e militares, como tem sido feito ocasionalmente. E aqui reside o elemento diferencial desta postura: como indicam as organizadoras, "é nas esferas das transformações mais cotidianas da vida material em sua relação com a produção social da cultura que procuramos trazer ao debate as contribuições de sociólogos e historiadores da cultura". Coisa que faltava em nossa historiografia.

Note-se, mais, que os participantes procuram colocar tudo em xeque, embora com o cuidado necessário, sem preocupação em "reinventar" tudo a partir de si próprios... Desde o exame de expressões como "Brasil moderno" até "revolução pelo alto" revisam-se aqui conceitos, dialogando com a historiografia existente e de olho no presente. Mas o interesse pelos anos 20 não derivou apenas de uma preocupação em acabar com a visão anacrônica de se entendê-los apenas como "uma ante-sala das transformações da década de 1930". 

Também certos impasses da atual crise de "modernidade" revolvida com o impacto tecnológico da Terceira Revolução Industrial estão na base do esforço de compreensão daquela primeira "modernidade", quando se viveu no Brasil um momento crítico, com a desorganização no sistema capitalista mundial. Crise que se aprofunda com o impacto das técnicas da Segunda Revolução Industrial, ampliando o sentimento de periferia, e de necessidade de descoberta de "nossas identidades" e "especificidades" (e até "regionalidades", diria), de discussão do papel do Estado.

Para o historiador das mentalidades, para além dessa tentativa de estudar em bases mais sólidas a famosa "via brasileira para a modernidade", as organizadoras do livro levantam a possibilidade de se indagar sobre os significados atribuídos à modernidade na década de 1920 pelos que viveram aquela história, "procurando compreendê-los à luz daquele presente": "Dessa maneira, deve-se buscar a singularidade da década de 1920 não apenas no seu futuro, como se os acontecimentos subsequentes estivessem predeterminados, mas a recuperação das indagações e das perplexidades daqueles que a viveram e que procuravam, como nós, equacionar as saídas da crise". Postura metodológica esclarecedora e despretensiosa, dir-se-ia clássica, por isso digna de citação como fecho.

Carlos Guilherme Mota é historiador, autor, entre outros, de "Idéia de Revolução no Brasil" (Ática).

Folha de São Paulo

Personae - Fotos e Faces do Brasil


Almas desvendadas

Pedro Vasquez

Ao constatar a febre do retrato fotográfico que acometeu seus contemporâneos logo no alvorecer da fotografia, o poeta Charles Baudelaire, paradigma do antiburguês, vituperou contra a "sociedade imunda (que) se precipitou, como um único Narciso, para contemplar sua imagem trivial sobre o metal" (1) (o processo dominante ainda era a daguerreotipia, daí a referência ao metal). O feitiço entretanto acabou se virando contra o feiticeiro e Baudelaire não só perdeu todo esse ardor condenatório como, no final da vida, andava com os bolsos cheios de retratos seus no formato "carte-de-visite" (2), distribuindo-os despudoradamente aos amigos como o mais narcisista dos burgueses.

Tal mudança radical foi decerto provocada pela percepção de que o retrato, longe de ser apenas um fútil instrumento de exaltação do amor-próprio ou de culto à personalidade, é, antes de mais nada, um elemento de ligação com o outro e um mecanismo de investigação da condição humana que refaz a indagação formulada por Gauguin numa de suas mais célebres pinturas do período taitiano: "Donde viemos? O que somos? Para onde vamos?".

O bom retrato fotográfico, aquele que não se detém no aspecto exterior do retratado, nasce sempre -ainda que isto possa ocorrer de forma inconsciente- da formulação desta indagação, sendo fruto do esforço combinado e ativo do modelo e do fotógrafo, cada qual se abrindo e se doando para o outro com a mesma irrestrita disponibilidade. Retratos desta natureza transcendem tanto o fotógrafo quanto seu modelo, que sobrevivem em muito às glórias eventuais ou duradouras de ambos, adquirindo uma dimensão própria que dispensa explicações e justificativas, adquirindo nexo mesmo para um observador distanciado no tempo e no espaço, que tudo ignora sobre o modelo e sobre o autor de sua fotografia.

Se retratos desta natureza são raros, mais ainda são os fotógrafos capazes de produzi-los, pois para tanto não é preciso ser um expoente na técnica fotográfica ou alguém com prestígio suficiente para ter acesso a personalidades famosas, e sim ser genuinamente interessado no outro. É preciso combinar generosidade e humildade, para evitar transformar seus retratados em meras cobaias de pesquisas estéticas e de supérfluas piruetas técnicas.

Antes de ir mais adiante, devo precisar que considero Madalena Schwartz como uma destas raras fotógrafas, enquanto encaro com reservas alguns dos mais festejados monstros sagrados do retrato fotográfico, como Yossuf Karsh -corretamente definido por alguém como um "taxidermista da fotografia"- e Richard Avedon, certamente mais talentoso e sensível do que Karsh, mas que, seguindo a mesma linha de raciocínio, poderia ser definido como um "entomologista da fotografia", pois transforma todos os seus retratados em insetos acuados diante do fundo assepticamente branco de seu estúdio, conferindo a todos o mesmo ar desolado de visceral tristeza que tem na série dedicada à degenerescência de seu pai, vítima de câncer, o implacável ponto culminante.

Em "Personae" estamos longe da rigidez do virtuosismo -essa espécie de sucedâneo da morte-, plenamente mergulhados no fluxo incoercível da vida, assistindo a um só tempo à evolução de seu fazer fotográfico e à multiplicidade das sensações e das possibilidades humanas. Excetuando seu filho Jorge, autor desta bela homenagem póstuma ao talento de Madalena, todos os retratados são figuras públicas, mas não encontramos em seus retratos a mesma empáfia niveladora dos vitoriosos, que tanto incomoda nos retratos de Karsh. Famosos ou não, trata-se aqui de pessoas, de verdadeiros seres humanos, alguns sem dúvida deslumbrados com a própria importância, uns alegres, outros tristes, outros até mesmo depressivos, mas todos humanos e nenhum deles indiferente.

São -com poucas exceções, como Pelé, dom Helder Câmara, Mãe Menininha do Gantois, Lula e Jânio- nomes importantes da área cultural, que ajudaram a forjar nossa identidade nacional, fotografados entre as décadas de 60 e 80. Em alguns dos retratos da fase inicial, quando ainda estava sob a influência das regras clássicas do gênero aprendidas nos cursos do Foto-Cine Clube Bandeirante, existe uma tendência para um enfoque dramático, com uma pose mais formal e uma iluminação mais enfática -como nos retratos de Raul Cortez, Paulo Vilaça e Paulo Autran. Algumas destas fotos são esplêndidas, como a de Walmor Chagas, que abre o livro, e a de Bibi Ferreira, que parecem personificar todo o desespero impotente que garroteava os artistas e os intelectuais durante o período da ditadura militar. Contudo, será ao abandonar o restritivo fundo negro do estúdio para focalizar os retratados em seus ambientes naturais de vida ou de trabalho que o talento de Madalena Schwartz se expande de forma mais efetiva, adquirindo uma leveza e um despojamento que sublinham sua argúcia psicológica, numa postura que evoca o estar ali sem estar ali de dois outros grandes mestres do retrato contemporâneo: o francês Henri Cartier-Bresson e o norte-americano Lee Friedlander, que também se destacaram como autores de retratos de membros da elite intelectual.

Num livro de qualidade tão homogênea, seria ocioso destacar esta ou aquela imagem. Contudo, se fosse preciso enfatizar a importância de apenas uma delas, valeria a pena evocar o retrato do físico e crítico de arte Mário Schenberg, de 1975, quando a autora, com parcos 10 anos de experiência, já demonstrava pleno domínio de seu "métier", conseguindo sublimar a técnica para se entregar totalmente à análise psicológica.

Para concluir, cumpre dizer que a impressão faz justiça às fotografias originais, enquanto textos curtos de Emanoel Araújo, Maria Bonomi, Gilda de Mello e Souza, Pietro Maria Bardi e Inácio de Loyola Brandão iluminam gradativa e agradavelmente a personalidade e a carreira desta húngara que foi dona de tinturaria na capital paulista, antes de conquistar seu lugar como a grande dama do retrato fotográfico em nosso país -posição que o presente livro justifica e ratifica.

Notas
1. Baudelaire, Charles, "Photography", in "Photography: Essays & Images", Beaumont Newhall (org.), The Museum of Modern Art, New York, 1980, pág. 112.
2. Formato de apresentação de fotografias inventado pelo fotógrafo francês Disdéri em 1854, mas difundido sobretudo a partir da década de 1860, no qual uma imagem de cerca de 9,5 cm x 6 cm era montada sobre um cartão suporte de cerca de 10 cm x 6,5 cm.

Pedro Karp Vasquez é fotógrafo e autor de "Álbum da Estrada União e Indústria" (Quadratim), sobre o fotógrafo oitocentista Revert Henrique Klumb.

Folha de São Paulo

terça-feira, 16 de abril de 2013

O Corvo*


Edgar Allan Poe


Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Fernando Pessoa

* Traduzido de The Raven, de Edgard Allan Poe, ritmicamente conforme com o original.

Zizinho foi um poeta. E viveu poeticamente.

Texto de Joaquim Maria Botelho 

Casou-se, em 1949, com a prima Ruth, sua melhor e mais querida amiga. E passou a vida pedindo a Deus que lhe permitisse morrer antes dela, porque não suportaria perdê-la. Foi atendido no dia 9 de outubro de 2001, abatido pelo mal de Alzheimer.
 
O casal viveu em São Paulo os primeiros anos do casamento. Zizinho trabalhava na Estrada de Ferro Central do Brasil e Ruth no Laboratório Torres e em algumas editoras. Mas, sempre que podiam, ficavam períodos em Cachoeira Paulista, na chacrinha herdada do avô, o guarda-chaves Juca Botelho. 

No começo de 1955, decidiram mudar-se para cá. Tinham três filhos pequenos – e eu na barriga – e queriam a tranquilidade de vê-los brincando e crescendo em lugar saudável, em contato com a terra e com animais. Ruth pediu remoção e assumiu cadeira no Colégio Valparaíba. Para ela não foi difícil. Graduada em Letras, num tempo em que o grau universitário era raro entre as professoras, e já autora de dois livros festejados pela crítica, tinha numerosos pontos de vantagem sobre os competidores e podia escolher qualquer escola que lhe aprouvesse. Para completar o plano, Zizinho, aventureiro e sonhador, abandonou o emprego promissor na estrada de ferro e resolveu que conseguiria trabalhar em Cachoeira Paulista ou em qualquer cidade próxima. Não perdia, nada, em sua opinião. Seu pai, Antonio Botelho, era o agente da estação Roosevelt da Estrada de Ferro Central do Brasil, seu chefe e por isso mesmo motivo de inveja entre os colegas. Chamavam-no de Botelhinho, em mal disfarçada censura por uma suposta preferência do agente pelo filho, em detrimento dos profissionais da área. Correto, dono de um código rígido de ética pessoal, Zizinho mortificava-se com a situação. Por isso, a mudança de cidade e de emprego não o incomodou. Muito depressa, conseguiu ocupação como laboratorista em uma firma de fotografia, na cidade de Lorena. Trabalhava à noite, quando Ruth já havia chegado a casa, das aulas do colégio. Trabalho exaustivo e inexpressivo, pelo menos serviu-lhe de escola para transformá-lo no excelente fotógrafo que foi. Aprendeu a composição química dos reveladores, fixadores e banhos de parada. Lia avidamente sobre história da arte, composição, estética. 

Já atuando como fotógrafo, ele próprio construiu o ampliador, ele próprio comprava os químicos e misturava as soluções de nome difícil, como hidroquinona e hipossulfito. Todos nós o ajudávamos a estender, secar e cortar retratos. Menino, muitas vezes eu fazia as entregas das encomendas. Mais tarde, Marcos e Júnia também desempenharam a função. Papai tentou me entusiasmar pela técnica, mas confesso que não consegui me interessar pela fotografia. Marcos, por esse tempo, era quem começava a se animar pela carreira do pai e era quem mais aproveitava os momentos com ele, no laboratório. 

Zizinho foi homem extraordinariamente devotado à mulher e aos filhos. Alegre e carinhoso. Em casa, à noite, tocava violão e cantava, com todos os filhos em volta. Apreciava música clássica e nos incentivava a ouvir. Ensinou-nos a dançar. Ele e Ruth escreviam e montavam peças de teatro, das quais participavam amigos, alunos, e nós também. Foram, sempre, verdadeiros agitadores culturais na cidade. 

Para dar ideia da força desse casal: Zizinho teve tuberculose em 1961 e por decisão de Ruth combinaram que fariam o tratamento em casa. Foi cercado de todos os cuidados, remédios, esterilização de roupas e utensílios e acompanhamento médico do velho amigo da família e primo torto dos dois, Dr. Darwin Aymoré do Prado. 

Em 1964, um problema de saúde de Marta, a filha mais velha, levou a família de volta para São Paulo. Zizinho, que podia trabalhar em casa, e, portanto, com horários flexíveis, assumiu alegremente o papel de cuidar dos filhos, enquanto Ruth escrevia e lecionava. Era um zero à esquerda, na cozinha, porém. Era capaz de, fervendo água, deixar queimar. Por isso, eu fui destacado para juntar-me à comitiva e administrar a casa, em Cachoeira, seis anos depois, em 1970, quando a nefrite do nosso irmão Antonio José exigiu tratamento em clima quente. Por dois anos, a família viveu repartida. Metade em Cachoeira, metade em São Paulo, onde Ruth ficara para não perder o emprego na editora Cultrix. 

Zizinho foi fazer faculdade já aos 53 anos. Os filhos estavam crescidos. Ruth era efetiva na cadeira de Português. Ademais, ainda que amasse a fotografia, com a abertura de modernos laboratórios, revelações no mesmo dia (ainda não havia a tecnologia para revelação em uma hora), agências que ofereciam o pacote completo para casamentos, por exemplo, o mercado ia ficando restrito para “retratistas” como ele. Pois Zizinho enfrentou o vestibular, passou com honras, sofreu o trote como qualquer calouro – divertiu-se ao chegar a casa com a cara pintada e a cabeça raspada – e foi cursar Letras, na Faculdade Teresa D’Ávila, em Lorena. 

Em 1975, penúltimo ano da faculdade, participou do Projeto Rondon, na cidadezinha de Uruçuí Preto, no interior do Piauí. 

Tornou-se professor, depois, da mesma faculdade, onde formou centenas de alunos que devem a ele o gosto pela arte.
 
Achei, há algum tempo, um papel dobrado com uma experiência literária de meu pai. Trata-se de um trabalho solicitado por um de seus professores da faculdade e devia responder a seguinte pergunta: “O que estou fazendo aqui?”. O texto mostra quem ele era. Para mim não seria preciso esse testemunho para que eu soubesse quem era meu pai. Foi o melhor amigo de minha mãe – e só isso já teria bastado para que eu o admirasse. Mas era mais do que isso. Um homem especialmente ético e especialmente amoroso. Foi meu herói e foi meu amigo.