sexta-feira, 29 de junho de 2012

Fatores responsáveis da coerência segundo Koch

O Conhecimento Lingüístico
Os estudiosos em sua maioria concordam que os elementos lingüísticos têm grande importância para o estabelecimento da coerência, mas é ilusão pensar que entendemos o significado de uma mensagem com base apenas nas palavras e na sintaxe. Koch (2000: 26) salienta que o conhecimento lingüístico compreende o conhecimento gramatical e o lexical.
Os fatores de natureza lingüística, cujo funcionamento textual é o estabelecimento da coerência, são: a anáfora; as descrições definidas; o uso dos artigos; as conjunções; os conectores interfrásicos; marcas de temporalidade; tempos verbais; a repetição; a elipse; modalidades; entonação; subordinação e coordenação; substituição sinonímica; ocorrência de signos do mesmo campo lexical; ordem de palavras; marcadores conversacionais; os conceitos e mundos que se deflagram no texto; fenômenos de recuperação pressuposicional; fenômenos de tematização; tema/rema; tópico-comentário e marcas de tematização; fenômenos de implicação; orientações argumentativas de elementos do léxico da língua; componentes de significado de itens lexicais. Nos textos das HQ não raro encontramos várias vezes esses elementos.

O Conhecimento de Mundo
O estabelecimento do sentido de um texto depende em boa parte do conhecimento de mundo ou conhecimento enciclopédico dos seus usuários, o qual vai permitir a realização de processos cruciais para a compreensão. Para Koch (1999: 60), é o conhecimento de mundo que propicia ao usuário do texto a construção de um mundo textual, ao qual se ligam crenças sobre mundos possíveis e que passa pelo modo como o receptor vê o texto, como se referindo ao mundo real ou ficcional e que vai influenciar decisivamente se o leitor vai considerar o texto como coerente ou não.
Segundo Maria G. C. Val (1999: 6), a coerência do texto deriva da sua lógica interna, resultante dos significados que põe em jogo, mas também da compatibilidade entre a rede que compõe o mundo textual e o conhecimento de mundo de quem processa o discurso, ou seja, o leitor. O conhecimento de mundo é visto como uma espécie de dicionário enciclopédico do mundo e da cultura arquivado na memória. Se o interlocutor não possui esse conhecimento a piada não provoca o efeito esperado, que é levar ao riso e, por meio dele, à crítica do modelo social vigente.

O Conhecimento Partilhado
O mundo textual, do emissor e do receptor, deve conter um certo grau de similaridade, o que vai constituir o conhecimento partilhado. Esse conhecimento determina a estrutura informacional do texto em termos do que se pode chamar de dado e novo. O conhecimento de mundo deve ter pontos em comum, resultado da experiência cotidiana ou científica. A diferença entre os dois pode afetar a compreensão e criar problemas de coerência.
O leitor, para compreender a ironia contida nos quadrinhos deve compartilhar com o escritor o conhecimento sobre o assunto abordado. O autor, para atingir seus objetivos, pressupõe que o leitor compartilhe desse conhecimento. Caso contrário, a piada não provoca o efeito de levar ao riso. A prática da compreensão, portanto, é fundada no conhecimento. O leitor, para compreender, deve possuir um conhecimento implícito, compartilhado com o autor, o que envolve a capacidade de reconhecer contextos e de conferir condições de verdade. Se as informações forem totalmente desconhecidas para o leitor será difícil para ele compreender o sentido cômico do texto.

Inferências
Segundo Koch (2000: 23), as inferências constituem estratégias cognitivas extremamente poderosas, que possibilitam o estabelecimento de pontes entre o material lingüístico presente na superfície textual e os conhecimentos prévios e/ou partilhados pelos interlocutores, sendo em grande parte responsável pela reconstrução dos sentidos que o texto explicita.
Uma das características marcantes dos quadrinhos é seu caráter lacunar, uma vez que, por trás do dito, há toda uma instância do dizer, a evidenciar que a significação da tira vai muito além da simples manifestação verbal. Por isso, uma das funções do leitor é o preenchimento do que não foi dito pela recuperação dos implícitos e pela percepção dos efeitos de sentido desejados pelo autor.
As inferências são processos mentais de decodificação, enriquecimento, reconhecimento, pressuposição, processamento, validação e conclusão de uma palavra e/ou enunciado, em um contexto. Sempre podemos fazer muitas inferências a partir dos elementos de um texto, uma vez que os textos mostram uma quantidade mínima de coesão formal, abrindo muitas linhas de possíveis inferências, o que normalmente requer que o leitor faça quantas inferências forem necessárias para obter a compreensão do texto.
O leitor é sempre responsável pela projeção do sentido que melhor lhe convier, a partir da posição política, social, econômica e pessoal que ocupe. Portanto, a interpretação de uma piada depende também das inferências, ou seja, das conexões que as pessoas fazem, quando tentam estabelecer a compreensão do que lêem. Os textos dúbios, como são os textos de humor exigem que o leitor realize várias inferências para construir o sentido, e o resultado dessas inferências leva ao riso.

Fatores Pragmáticos
A autora Ingedore Koch (1999: 74) mostra que a coerência depende em muito de fatores pragmáticos, já que a compreensão do texto depende de fatores como: contexto de situação, intenção comunicativa, características e crenças etc. O processo de compreensão obedece a regras de interpretação pragmáticas uma vez que leva em conta a interação, as crenças, desejos, quereres, preferências, normas e valores dos interlocutores.
Como exemplo podemos citar que a base de sustentação do humor dos quadrinhos do aposentado advém da crítica social à crença de que, para os aposentados, há muito pouco a fazer e que, em decorrência disso, eles passam os dias ociosos. Por tratar desse tema de domínio comum, as tiras assumem um caráter público e abrangente que possibilitam ao autor a condição de criar e mesmo de modificar relações comunitárias. Essa informação, embora relacionada aos fatos do cotidiano, sempre apresenta um outro ângulo, uma visão inesperada e é o reconhecimento pelo leitor desse efeito oculto, em maior ou menor intensidade, que garante o sentido humorístico.

Situacionalidade
A coerência se estabelece pelo nível de inserção do texto numa determinada situação de comunicação, e a situacionalidade refere-se ao conjunto de fatores que tornam um texto relevante para uma dada situação comunicativa. Quando a condição de situacionalidade não ocorre, o texto tende a parecer incoerente, porque o cálculo de seu sentido se torna difícil ou impossível.
Para Koch (1999: 76), foi a não-situacionalidade que levou alguns estudiosos a classificarem certos textos como incoerentes. Porém, verificou-se depois que esses textos em uma situação específica eram perfeitamente coerentes. A compreensão do sentido cômico dos textos das HQ depende muito mais da situacionalidade do que a compreensão de outros tipos de textos escritos. O autor das tiras conta uma história com personagens atuando de modo a quebrar expectativas criando incongruências em relação ao esperado, tendo em vista o modelo social vigente para fazer conexões e para produzir sentido nas coisas do mundo.
Entretanto, a surpresa não gera estranhamento ou conflito para o leitor de tiras em quadrinhos, pois é vista por ele como fazendo parte do jogo dos esquemas de conhecimento desse leitor, ou seja, o conflito criado pela ambigüidade do texto não só já é esperado, como é percebido como parte integrante da situação de comunicação. É pela situação de incongruência que se cria o humor.
Para Koch (1999: 39), o sentido da frase absurda está justamente em ser absurda. Quando o leitor não consegue calcular a significação, logo conclui que o autor o fez incoerente de propósito e que a não-coerência é justamente o que lhe dá o sentido. É, portanto pelo princípio da situacionalidade que se percebe as supostas incoerências nas tiras como compondo um texto coerente, ou seja, a adequação do texto à situação comunicativa desfaz uma aparente incoerência e suscita o riso, criando o efeito de humor.

Intencionalidade
O produtor quer sempre produzir um texto que faça sentido para o leitor. Portanto, a noção de intencionalidade trata da intenção do emissor de produzir uma manifestação lingüística coesiva e coerente.
O leitor, pelo principio de cooperação, tentará sempre construir uma imagem coerente dos eventos ao invés de trabalhar com as conexões verbais isoladas para realizar a interpretação textual. O sentido humorístico resulta, assim, da relação de co-intencionalidade que se estabelece entre os parceiros do ato comunicativo, mais especificamente entre enunciador e destinatário, ou seja, autor e leitor.
A coerência é definida em função dessa idéia de continuidade de sentidos e essa continuidade estabelece certa coesão conceitual cognitiva elaborada tanto pelo produtor como pelo receptor do texto, o que nos leva a outro princípio do estabelecimento da coerência, que é o de aceitabilidade.

Aceitabilidade
A aceitabilidade diz respeito à atitude cooperativa dos receptores de aceitarem uma dada expressão lingüística como um texto coerente, que apresente alguma relevância. O autor pressupõe que seus leitores cooperem com ele no processo de construção de sentido. Koch (2000: 18) usa a expressão “jogar o jogo” como se referindo aos interlocutores aceitarem, em princípio, a contribuição do parceiro como coerente e adequada à realização dos objetivos visados.
A atividade de interpretação deve fundamentar-se na confiança de que, quem produziu o texto tem sempre determinadas intenções, o que conduz o leitor a prever uma pluralidade de interpretações. O conhecimento do leitor da intenção do produtor do texto de criar o humor colabora muito para a aceitabilidade do texto e para o estabelecimento da coerência e da interpretação da comicidade do texto.
Maria G. C. Val (1999: 11) coloca a aceitabilidade como o outro lado da intencionalidade, pois, segundo a autora, “a aceitabilidade concerne à expectativa do recebedor de que o conjunto de ocorrências com que se defronta seja um texto coerente, coeso, útil e relevante, capaz de levá-lo a adquirir conhecimentos ou a cooperar com os objetivos do produtor”.
O objetivo do escritor é, por meio dos jogos de dizer, ressaltar estratégias capazes de provocar a adesão do leitor com vistas à produção, circulação e construção de sentidos. O humor é um fenômeno discursivo que busca a contradição, a transgressão, o deslocamento de algo, quase sempre de modo inesperado, a fim de possibilitar o surgimento de outro efeito.

Informatividade
A informatividade diz respeito à medida na qual as ocorrências de um texto são esperadas ou não, conhecidas ou não, no plano conceitual e formal. O texto será tanto menos informativo quanto maior a previsibilidade; e tanto mais informativo quanto menor a previsibilidade. Um discurso menos previsível é mais informativo, porque a sua recepção, embora mais trabalhosa, resulta mais interessante, mais envolvente. Nos quadrinhos o autor sempre procura surpreender o leitor com uma situação bem humorada e original.

Relevância
A relevância governa as estratégias de compreensão. Um conjunto de enunciados será relevante para um determinado tópico discursivo se eles forem interpretáveis como predicando algo sobre um mesmo tema e que esse tema seja do conhecimento do leitor. A relevância não se dá linearmente entre pares de enunciados, mas entre conjuntos de enunciados e um tópico discursivo.
A prática da compreensão é fundada no conhecimento compartilhado, o que envolve a capacidade de reconhecer contextos e de conferir condições de verdade/falsidade. Para muitos autores, atualmente a noção de tópico discursivo é crucial para a compreensão da coerência textual. O leitor das tiras em quadrinho já espera delas algo humorístico e vai à procura do que a torna engraçada dentro da situação abordada, inferindo sentidos a partir de pistas que estão no código verbal e ou no não-verbal.

Focalização
A focalização tem relação direta com a questão do conhecimento de mundo e do conhecimento partilhado. As diferenças de focalização causam problemas de compreensão, a focalização não só torna a comunicação mais eficiente, como, na verdade, a torna possível.
Diferentes elementos do contexto podem gerar focalização, como, por exemplo, os títulos dos textos, por selecionarem áreas do conhecimento de mundo, avançando expectativas. Percebemos que nas histórias em quadrinhos a diagramação da página e o título da história preparam o leitor para compreender o conteúdo do texto. Ao visualizar esses elementos antes mesmo de iniciar a leitura, o leitor já tem, por meio da focalização, o conhecimento prévio de que se trata de um texto de humor e que por esse motivo as aparentes incoerências fazem parte do seu sentido.

Intertextualidade
A intertextualidade concerne às diversas maneiras pelas quais a produção e a recepção de dado texto depende do conhecimento de outros textos. Inúmeros textos só fazem sentido quando entendidos em relação a outros textos, que funcionam como seu contexto.
Maria C. G. Val (1999: 15), relata que o mais freqüente interlocutor de todos os textos, invocado consciente ou inconscientemente, é o discurso anônimo do senso comum, da voz geral corrente. Portanto, para a autora, avaliar a intertextualidade pode ser, em sentido lato, analisar a presença dessa fala subliminar, de todos e de ninguém, nos textos.
Segundo o autor Verón (1980: 82), um texto não tem propriedade em si: caracteriza-se por aquilo que o torna diferente de outros textos, trabalha-se sempre sobre vários textos, seja isso de forma consciente ou não, já que as operações na matéria significante são, por definição, intertextuais.

Referências Bibliográficas
KOCH, I. V. E TRAVAGLIA, L. C. Texto e coerência textual. 6ª ed. São Paulo: Contexto, 2002.
KOCH, Ingedore Villaça. O texto e a construção dos sentidos. 3ª ed. São Paulo: Contexto, 2000.
––––––. A coesão textual. São Paulo: Contexto, 1999.
––––––. A coerência textual. 14ª ed. São Paulo: Contexto, 2002.

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