sexta-feira, 20 de abril de 2012

Como construir hipóteses de pesquisa


Ao definir hipótese, Gil (1996, p. 35) afirma que ela é uma "proposição tes­tável que pode vir a ser a solução do problema".
Um pesquisador observa os fatos e procura explicar sua ocorrência, apoiado em determinadas teorias. Após determinar o problema que deseja resolver com a pesquisa, deve-se interrogar sobre as possíveis respostas para ele. Assim é que ele inicia seu trabalho com a exposição de um problema cuja solução seja pos­sível. Entre as supostas soluções, ou hipóteses, o pesquisador escolherá a mais consistente teoricamente e adequada para iniciar a busca da solução dos fatos problemáticos, objetos de sua investigação. É possível que diante dessas possíveis respostas se sinta em dificuldades quanto à teoria e experiência necessárias para dar andamento ao estudo. Para Richardson (1999, p. 104), "uma vez determi­nado o problema, o pesquisador enfrenta uma variedade de possíveis respostas, desconhecendo qual é a mais adequada".

Por isso, cabe-lhe escolher as que lhe parecem mais adequadas para reali­zação de testes. Das hipóteses derivam as variáveis a serem estudadas. Nelas apóiam-se as informações coletadas, os métodos usados e a análise dos dados. Na elaboração de questionários e entrevistas (principalmente, em pesquisa social), deve-se fazer referência às hipóteses, explicativas ou implícitas, da pesquisa.

A hipótese é definida, portanto, como solução tentativa; consiste em uma su­posta resposta destinada a explicar provisoriamente um problema até que os fa­tos venham a contradizê-Ia ou confirmá-Ia, isto é, uma formulação provisória de prováveis causas do problema, objetivando explicá-Io de forma científica. É uma suposição que se introduz em um teste para demonstrar as conseqüências que seguem; portanto, não é mera opinião, ficção ou contraposição ao fato. Em geral, baseia-se, dedutivamente, na relação do problema com a solução proposta pelo pesquisador, tendo em vista verificar a validade da resposta. Hipóteses podem ser obtidas pela experiência (indução) ou pela dedução. As condições que ajudam a descobri-Ias são: (a) a própria pesquisa; (b) a analogia; (c) a indução; (d) a dedu­ção; (e) as reflexões. Para Gil (1996, p. 40), as principais fontes de hipóteses são: a observação, os resultados de outras pesquisas, as teorias, a intuição.

A distinção de uma hipótese de uma afirmação factual, segundo Richardson (1999, p. 105), depende do conhecimento do pesquisador: se ele sabe que a afir­mação é verdadeira, ela deixa de ser uma hipótese, pois é um fato. Se não tem certeza de sua validade, trata-se de uma hipótese.

É de salientar que nem todos os tipos de pesquisa exigem o estabelecimento de hipóteses (RICHARDSON, 1999, p. 104). Entre eles, o autor citado apresenta as pesquisas explicativas em que se deseja "conhecer ou levantar os aspectos ge­rais de um tema"; no entanto, nos estudos que procuram determinar os fatores ou motivos que influenciam certos acontecimentos, que analisam relações entre fenô­menos ou procurem estabelecer a existência de certa característica, esses tipos de pesquisa precisam de hipóteses. Gil (1996, p. 43), contudo, afirma que, "rigorosa­mente, todo procedimento de coleta de dados depende da formulação prévia de uma hipótese. Ocorre que em muitas pesquisas as hipóteses não são explícitas".

Em estudo cujo objetivo é descrever um fenômeno ou apresentar suas carac­terísticas, as hipóteses não precisam ser enunciadas formalmente; se a pesquisa, porém, objetiva verificar relação de associação ou dependência entre variáveis, é necessário elaborar uma hipótese de forma clara e precisa.

A hipótese, respeitando-se sua natureza, não deve contradizer verdade já aceita, ou explicada; deve ser simples (deve-se evitar hipótese complexa) e deve ser verificável pelos fatos. Deve ser formulada de maneira clara e sem ambigüi­dade, utilizando termos precisos e concisos. Deve ainda atribuir a cada questão uma técnica adequada para a solução do problema.

Funções das hipóteses, segundo Cervo e Bervian (1983, p. 29 s):

· Orientar o pesquisador, dirigindo-o na direção de uma causa provável do fenômeno que investiga; para Garcia (1998, p. 33), as hipóteses "funcio­nam como setas de um caminho a seguir, ora para definir aspectos me­todológicos adequados ao problema e conforme os objetivos, ora para definir ações e traçar estratégias mais efetivas, especificar o problema, melhor detalhar os objetivos e metas possíveis e almejadas da pesquisa e orientar as explicações ou soluções do problema. Essas setas devem conduzir a uma verificação empírica".
· Coordenar e completar os resultados obtidos, agrupando-os em um con­junto completo de fatos, para facilitar a compreensão e o estudo. 


Entre as finalidades da hipótese na organização da pesquisa, ressaltam-se: (a) com base em sua formulação técnica e apropriada, o pesquisador pode deli­near a amostra e fazer a seleção de variáveis para investigação; (b) favorecer a concentração de esforços e evitar o dispêndio desnecessário de recursos; (c) pos­sibilitar a procura de informações teóricas adequadas à solução do problema.
Garcia (1998, p. 35) apresenta os seguintes exemplos de hipóteses:
Se os pais são ruins, os filhos também o serão.
De pais ruins, podem-se esperar filhos não ruins, ou não necessariamente filhos ruins.
De pais não ruins, podem-se esperar filhos ruins.
De pais não ruins, podem-se esperar filhos não necessariamente ruins.

As hipóteses seguintes, porque utilizam termos imprecisos e sem base empí­rica para orientar a pesquisa, são consideradas confusas:
Maus juízes não deveriam atuar em processos penais, porque podem trazer sérios riscos à sociedade ...
Promotores corajosos devem ser condecorados pelo Estado, para que continuem sem­pre atuando com honestidade.
O excesso de impostos leva os empresários a optar por políticas de contenção de pessoal (os destaques mostram a ambigüidade dos termos utilizados).

Exemplo de hipótese formulada com clareza:
Inflação de menos de 2% ao ano eleva o crescimento econômico industrial em 3%.
Os maus políticos devem ser expulsos de seus partidos, pois atraem o desinteresse do eleitor.
São os seguintes os critérios ou requisitos para a formulação de uma hipóte­se: (a) consistência lógica: os termos do enunciado não podem ser contraditórios e ele deve ser compatível com o conhecimento científico atual; (b) os fatos arro­lados devem ser verificáveis, passíveis de comprovação; por isso, não se admite o uso de conceito moral, religioso, transcendente; (c) a conceituação deve ser clara e compreensível; por isso, a necessidade de termos precisos e de se evitar genera­lizações ("os conceitos empregados devem ser precisos, rigorosos e previamente definidos para evitar ambigüidades" - Richardson, 1999, p. 106); (d) não deve basear-se em conceitos morais e subjetivos, e evitar adjetivos como: bom, mau, jovem, velho, atual, antiquado, prejudicial; (e) deve dispor de uma teoria que lhe dê sustentação.
As hipóteses aparecem em todas as fases da pesquisa, mas principalmente no planejamento da pesquisa, na introdução do relatório, na interpretação dos dados levantados e na conclusão do trabalho.
Para Richardson (1999, p. 64) as hipóteses podem ser formuladas de três formas: (a) com apenas uma variável (univariáveis); (b) com duas ou mais va­riáveis ligadas entre si (multivariáveis); (c) com relação de causa e efeito entre as variáveis (de relação causal).

Variáveis
 O uso de variável na formulação de um enunciado científico tem como objetivo alcançarlhe maior precisão. Uma variável pode assumir diferentes valores, segundo as circunstâncias. São exemplos de variáveis: idade, sexo, categoria social, estatura, peso, grau de escolaridade, estado civil, religião. Assim podem-se observar as variáveis em destaque nas seguintes hipóteses:
O índice de desistência no curso de Direito da Faculdade São Francisco da USP é maior que o curso de Artes da ECA.
Solteiros freqüentam menos teatro que pessoas casadas ou que vivem com al­guém.
Mulheres analfabetas têm maior número de filhos que as que cursaram uma faculdade.
A classe social de um aluno do curso de Direito influencia na escolha da carreira (ad­vocacia, magistratura, promotoria, procuradoria).
Nesse caso, a variável classe social é considerada variável independente, en­quanto escolha da carreira é a variável dependente.


Extraído de: MEDEIROS, João Bosco; HENRIQUES, Antonio. Monografia no Curso de Direito: como elaborar o trabalho de conclusão de curso (TCC). 6.ed. São Paulo: Atlas, 2008.

Um comentário:

  1. Gostei muito da explicação .... realmente foi esclarecedora ! Parabéns ...

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